Varejo Cidadão
Abrir o negócio próprio e valorizar sua cultura e ancestralidade é o recurso de grupos que investem na economia criativa para incentivar renda entre a população negra.
 
Dessa cooperação, nasceu o Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE) que, entre 2013 e 2016, contribuiu para o desenvolvimento de mais de 1600 negócios liderados por negros, assegurando oportunidades para a ascensão social e o fortalecimento de líderes negros no comércio. O Projeto deixou outro legado: a organização da Rede Brasil Afroempreendedor (Reafro), associação sem fins lucrativos responsável atualmente por dar suporte a iniciativas semelhantes no país. A Rede promove encontros, feiras e capacitações para troca de experiências e aprimoramento das práti cas de gestão das empresas lideradas por negros e negras que, por meio do comércio, valorizam culturas e saberes que chegaram ao Brasil séculos atrás. Segundo a presidente da Reafro, Ruth Pinheiro, a iniciati va nasceu na década de 1980. O conceito designou o momento em que os empreendedores negros começaram a se unir com o objetivo de superar desafios comuns, em especial o da discriminação.
“O empreendedor negro é vítima de racismo com frequência. Ele não é bem recebido nos bancos, não é bem aceito pelos clientes, sofre com a falta de confiança de sócios que subestimam sua capacidade. Essas dificuldades explicam a necessidade de se criar núcleos de orientação voltados exclusivamente para o empreendedor negro”, destaca. João Carlos Martins preside o Ceabra do estado de São Paulo. Junto da Reafro, a entidade atua na capacitação de artesãos, criadores e designers para gestão do próprio negócio. Para ele, o racismo está disfarçado na descrença do empregador, dos financiadores e até de autoridades governamentais. Aos poucos, porém, os grupos vencem o ceticismo, conquistam espaço e garantem os recursos necessários para alavancar os negócios: “Ainda é necessário ao negro, no Brasil, provar sua capacidade a todo mundo, o tempo todo. Mas somos determinados, não desistimos ao esbarrar em qualquer obstáculo”.
A discriminação racial no mundo dos negócios foi abordada em pesquisa realizada entre os participantes do PBAE. O estudo apontou que quase metade dos respondentes (44,5%) já sofreram com manifestações de racismo por parte de clientes. De acordo com as lideranças das entidades de apoio ao afroempreendorismo, a competitividade dos empreendedores afro-brasileiros é afetada por dois elementos, principalmente: além das manifestações cotidianas de discriminação, há também o histórico de exclusão dos negros em relação a oportunidades de trabalho e estudo. Em consequência dessa realidade, a metade negra dos pequenos e microempresários brasileiros não compete em condições de igualdade com a metade branca. A dificuldade de acesso a crédito bancário, segundo Ruth Pinheiro, é outra justificativa para a criação das organizações impulsionadoras do afroempreendorismo. Ela ressalta que, para alavancar os negócios, é essencial a qualquer empresário acompanhar as atualizações
tecnológicas, buscar capacitações, adquirir matéria-prima de qualidade e manter capital de giro – e tudo isso exige investimento. “Historicamente, a população negra tem menor renda. Poucos tiveram tempo e oportunidade de construir patrimônio e por isso ainda são poucos os empreendedores negros que conseguem dar garanti as aos bancos”, explica. Por conta disso, um dos objetivos da Reafro é desenvolver projetos e estabelecer parcerias que possibilitem empréstimos e operações financeiras de crédito para o atendimento direto e indireto aos empresários negros.
 
EMPREENDEDORISMO E VALORIZAÇÃO CULTURAL
 
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