27 de novembro de 2019
Uma pioneira do Sistema CNDL
Varejo SA por Varejo SA

Criando oito filhos e enfrentando todo tipo de desconfiança, Auzônea Rosa Vieira foi a primeira mulher a presidir uma CDL

Há 40 anos, um grupo de lojistas de Patos de Minas buscava oferecer crediário seguro aos comerciantes da cidade. Eram empresários visionários que se encontravam na Associação Comercial local e faziam as primeiras tratativas para a criação de mais uma Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) em Minas Gerais. Entre os pioneiros, estava uma figura que chamava atenção pela disposição. Era Auzônea Rosa Vieira, que viria a ser a primeira mulher presidente de uma CDL no país!

Natural da cidade mineira de Lagamar, Auzônea trazia do berço a veia empreendedora. Os pais eram donos de um mercadinho e a moça desde sempre conviveu com os negócios. “Adorava acompanhar meu pai e ver como ele negociava. Quando acabei o 4º ano, me neguei a ir para o colégio interno e pedi para trabalhar com ele”, conta, lembrando que fazia de tudo no comércio. “Eu atendia clientes, ajudava a pesar produtos e até buscava mercadoria em outras cidades”.

Mais tarde, mudou-se para Patos de Minas, onde se casou com um comerciante e, como não poderia deixar de ser, contribuiu para o sucesso da loja do marido. “Era uma loja de retalhos, pequena, como nosso dinheiro permitia”, lembra. “Alugamos uma garagem e colocamos balcão e balaios para expor os produtos”. Com o aumento das vendas e crescimento dos negócios, ela sentiu necessidade de profissionalizar os processos da empresa. Para aprender mais, acabou se envolvendo com o movimento varejista. “Comecei a participar da Associação Comercial e passei a frequentar religiosamente todas as reuniões. Em uma delas, surgiu a ideia de fundar a CDL em Patos de Minas”.

O Clube de Dirigentes Lojistas (nomenclatura que depois mudou para Câmara) foi criado em julho de 1979 e teve como primeiro presidente Edson Fernandes Ferreira, que ficou à frente da CDL no processo de estruturação da entidade, até 1981. Na sucessão dele, o nome de Auzônea veio quase naturalmente. Ela era disposta, envolvida e tinha o espírito aguerrido. No entanto, a empresária tinha lá suas dificuldades: “Do grupo, eu era a menos disponível. Além de cuidar da empresa, estava passando por problemas pessoais, enfrentando uma separação e cuidando de oito filhos”. Ainda assim, Auzônea encarou o desafio: “Não queria deixar o trabalho que havíamos feito se perder e assumi a responsabilidade do cargo”.

Na época, não era comum mulheres assumirem a liderança de entidades e isso gerou olhares duvidosos. No entanto, preconceito e desconfiança não foram barreiras para a dirigente, que decidiu buscar ajuda. Foi à CDL Belo Horizonte atrás de orientação e apoio. Chegando à capital mineira, encontrou muito mais que assistência e acolhida. “Fui levada a uma sala de reunião cheia de homens. Assim que entrei, todos se levantaram e me aplaudiram. Então, veio o anúncio de que eu era a primeira mulher no Brasil a aceitar o desafio de presidir uma CDL”, lembra, emocionada. “Fiquei sem palavras, tremia e pensava em como estava agradecida”.

Mais do que emocionante, o ato foi determinante para que a empresária se sentisse confiante para liderar a CDL de Patos de Minas. “Aquele momento me trouxe estabilidade emocional e coragem para buscar conhecimento e determinação para fazer um ótimo trabalho”. Ela se capacitou e mergulhou no livro de atas da entidade, que trazia todos os registros da entidade desde a sua fundação. “Ler aqueles relatos me abriu a mente. Sabia que, quando voltasse a Patos, levaria avanços consideráveis para nossa entidade”. Dito e feito!

Auzônea não só assumiu a cadeira de presidente como também promoveu mudanças decisivas na instituição: “Aluguei um cômodo e coloquei uma mesa grande para as reuniões. Contratei dois funcionários para atendimento ao público e consultas ao SPC. Visitei pessoalmente todas as lojas de Patos de Minas e consegui 40 associados”. Como presidente, também buscou junto à prefeitura o título de entidade de utilidade pública para a CDL e lançou a primeira promoção de Natal da cidade.

Sem perceber, Dona Auzônea fez história e abriu caminho para uma CDL ainda mais relevante para a sociedade patense. Ela ainda foi eleita para mais uma gestão (1984-1987) e até hoje é lembrada por suas realizações. Depois que deixou a Presidência, seguiu na ativa em todas as administrações. Hoje, do alto dos seus 90 anos, continua contribuindo para a busca de soluções inteligentes. Apoia, dá conselhos e cobra dos dirigentes mais novos. Sua experiência continua sendo modelo e inspiração para todo o Sistema CNDL, em especial às mulheres, que hoje ocupam diretorias e a Presidência de federações em todo o Brasil.    

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