1 de setembro de 2016
Uma coxinha de R$ 420,00
Varejo SA por Varejo SA

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Ando com meu sobrinho, o pequeno Jonas, pendurado nos braços. Caminhamos por uma agradável e arborizada calçada em busca de uma loja de brinquedos para comprar seu presente de aniversário de três anos. Pelo caminho, enquanto ele exulta em meus braços dizendo que quer um Transformers, passamos na frente de uma espécie de padaria chique, um sobrado de dois andares em estilo colonial. Do blindex à prova de bala, vem o brilho de uma cafeteira italiana prateada, que se destaca na vitrine. Aquilo prende minha atenção. Só desperto quando Jonas me dá um carinhoso tapa na bochecha e grita: “Quero coxinha. Hum!”. Enquanto eu apenas olhava, o moleque afinava outro sentido, o olfato. E, realmente, daquela casa vinha um delicioso perfume de fritura feita na hora. É a senha. Entramos.

Logo após os primeiros passos ali dentro, revela-se o incômodo. O local é lotado de pequenos corredores, onde amontoam-se produtos diversos. Jonas esbarra desastrado num pote de castanhas de 40 reais, que vai ao chão. “Desculpe, senhor, está tudo bem”, diz um funcionário, já se agilizando para limpar o estrago. Eles varrem as castanhas e está tudo certo. Acho a iniciativa legal.

Minha atenção novamente é atraída. Agora, para o alto pé direito do local. O lugar é todo decorado de marrom e dourado, parece uma espécie de country club. No andar de cima, há todo tipo de máquinas de café, eletrodomésticos chiques, jogos de louça, quadrinhos de enfeitar e relógios de parede.

No térreo, tudo o que se pode esperar de uma padaria de verdade. Do salame ao pão sem glúten, passando por um minimercado para salvar qualquer noite solitária: vinhos, bolos suíços, salgadinhos, molhos e, claro, todo tipo de castanhas, amêndoas, nozes etc. Depois de muito observar, sentamos no balcão. Eu digo a Jonas, solene, como ensinamento: “Este é o melhor lugar de qualquer bar, restaurante ou padaria, pois podemos ver quem e como estão fazendo nossa comida”. Ele me ignora, mais interessado em brincar com o saleiro.

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Chamo a atendente, mas, vejam, ela também me ignora. Será que eu sou muito chato? Confusa e atabalhoada com seis pedidos ao mesmo tempo, a jovenzinha disfarça e finge que não ouve minhas perguntas sobre o cardápio. Tem uma expressão contrariada no rosto, uma tatuagem de beijo no pescoço e os cabelos pintados de louro. “Priscilla”, eu leio no crachá. Uns 20 minutos depois, chega um café, um suco de laranja e uma porção de coxinhas das mãos nada delicadas de “Pri”, como a chamam por lá. O suco aguado traz sensação de que não foi espremido na hora. Não gosto. O café está apenas ok para R$ 5 e vem acompanhado de um sequilho farinhento. Mas a coxinha… Aaaah, a coxinha vem quentinha, crocante e na primeira mordida revela um cremoso recheio, com milho, frango, azeitona e requeijão. Eu e Jonas nos refestelamos.

Considero a experiência muito boa depois daquela pequena maravilha dourada. Encaminho-me para pagar a conta, quando o brilho da vitrine me atinge em cheio de novo, agora de revés. Não, não é aquela primeira cafeteira que vi antes, é outra. Não posso acreditar nos meus olhos. É uma Bialetti Fiammetta, que procurei inclusive em Roma, sem sucesso. O brinquedinho cheio de estilo custa a bagatela de R$ 420. Sem sequer pensar por um segundo, saco o cartão de crédito e divido a dolorosa em três vezes. Jonas se empolga com meu consumismo de rompante e pega na prateleira um pacote de chocolates belgas em formas de concha do mar. Ah, que se exploda. Levo um charuto para comemorar.

Total do tíquete: R$ 512,30.

Saio com o bolso mais “vazio”, porém feliz. Nada como achar um tesouro há muito tempo procurado.

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