3 de setembro de 2017
Um retrato do empreendedor brasileiro
Varejo SA por Varejo SA

Sonho. Paixão. Dedicação. Resiliência. Inovação. Compartilhamento. Empreender pode ter vários significados e caminhos, mas, para transformar uma ideia em negócio, é preciso se profissionalizar

Por Renata Dias

O movimento empreendedor nunca esteve tão vivo no Brasil. Na era da conectividade, em que a palavra de ordem é compartilhamento, multiplicam-se as formas de empreender e os modelos de negócio são tão diversos quanto as ferramentas de capacitação e financiamento existentes no mercado. O consenso geral é que não basta ter uma boa ideia; para ter êxito, é fundamental profissionalizar-se e estruturar um negócio adequadamente. Estamos em um mundo plural, criativo e muito inovador. Se os desafios para empreender são similares a qualquer tipo de negócio, as soluções são cada vez mais diversas.

De acordo com a pesquisa Empreendedores Brasileiros: Perfis e Percepções, realizada pela Endeavor Brasil, com o auxílio do IBOPE Inteligência, em 2013, é notável a forte aspiração da maioria da população por uma carreira empreendedora: 76% dos brasileiros prefeririam ter um negócio próprio a ser empregados ou funcionários de terceiros. Além disso, empreender é considerado um meio de alcançar mais prazer, autonomia e realização profissional e pessoal. O estudo apontou, ainda, que aproximadamente 90% dos brasileiros acreditam que “empreendedores são geradores de empregos” e praticamente todos concordam que “ter um negócio próprio é assumir responsabilidades” e “colocar a mão na massa”.

Em outra frente, a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), na edição 2016, realizada em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), demonstrou que a recuperação da economia passa, necessariamente, pelo empreendedorismo. Os números apontaram que empreendedores representam 36% da população brasileira entre 16 e 64 anos, ou seja, cerca de 48 milhões de brasileiros encararam o desafio de gerir o próprio negócio. Os mais velhos e os mais novos também estão procurando mais o empreendedorismo, como alternativa de ampliação da renda familiar. Se, em 2012, 7% dos empreendedores iniciais tinham mais de 55 anos, em 2016, esse número saltou para 10%. Já os brasileiros empreendedores entre 18 e 24 anos passaram de 18%, em 2012, para 20% no ano passado.

Nessa mesma edição da pesquisa, foi possível verificar que o empreendedorismo por oportunidade voltou a crescer: 75% dos empreendedores nascentes – aqueles que estão envolvidos com a abertura de uma empresa – estão buscando esse caminho porque encontraram um nicho de atuação. Também houve uma ligeira melhora na proporção de novos negócios por oportunidade – 57,4% em 2016 contra 56,5% em 2015.

Perfil

  • 36% da população brasileira são empreendedores
  • 10% empreendedores iniciais têm acima de 50 anos
  • 20% dos empreendedores iniciais têm entre 18 e 24 anos
  • 75% dos empreendedores nascentes encontraram um nicho de atuação
  • 57,4% são novos negócios por oportunidade

 

Crise é oportunidade?

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Pablo Guterrers, coordenador nacional da Câmara de Dirigentes Lojistas Jovem (CDL Jovem)

A crise econômica que o país atravessa tem papel central nesse movimento e deu um empurrão naqueles que sempre quiseram ser seu próprio patrão. Para o coordenador nacional da Câmara de Dirigentes Lojistas Jovem (CDL Jovem), Pablo Guterres, a crise reflete de forma diferente em cada tipo de negócio e abre, sim, oportunidade para os pequenos empresários. Para ele, empreendedor do ramo de decoração há 13 anos, o momento pede estruturação para colher os frutos quando o mercado reaquecer. “Na minha área, por exemplo, estamos vendo grandes players fecharem e os pequenos, que têm uma estrutura mais enxuta, estão ocupando espaços a que antes não conseguiam chegar. Por isso, é importante se estruturar durante a crise, porque, quando ela passar, os que aproveitaram esse momento para se qualificar serão beneficiados”, afirma.

Geovanne Teles, empreendedor da área de tecnologia da informação, segue a mesma linha e concorda que a crise é oportunidade, mas para quem já está no mercado, funcionando como “um purificador de água”. “Quem já está no mercado e está sofrendo com a crise é obrigado a se mexer para mudar, investir em novas soluções, com um olhar mais global que acaba purificando o negócio; aí, sim, a crise é oportunidade. Mas começar um negócio em época de crise pode ser muito mais difícil, porque a dificuldade de crédito é maior”, avalia. O importante é não perder o foco nem desanimar e se qualificar. “Não pode esperar o juiz apitar o início da partida para ir colocar a chuteira. Não pode esperar, tem que estar pronto, pois, na hora em que o mercado reaquecer, quem estiver pronto sairá na frente”, incentiva.

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Geovane Teles, empreendedor da área de tecnologia da informação


Capacitação
Não importa se a motivação para empreender vem por necessidade ou por vontade. O que importa é criar novos caminhos para se profissionalizar. Com a internet, multiplicam-se plataformas que auxiliam na elaboração de planos de negócios. “Na época em que eu comecei a empreender, em 1991, comecei sozinho, em uma sala pequena, e não tinha acesso a nada. Se quisesse aprender alguma coisa, minha única alternativa era sentar em um banco de faculdade. Hoje, existem muitas plataformas de capacitação, como as oferecidas pela HSM, FDC, Sebrae, com muita facilidade e acessíveis a quem quiser se qualificar”, aponta Teles.

Guterres também compara as ferramentas que auxiliam o empreendedor disponíveis atualmente com as de tempos atrás e destaca a importância do associativismo para passar por esse processo. “Eu vivi todas as etapas de um empreendedor. No começo, quebrei muito a cara por empreender de forma instintiva, mas quebrar a cara faz parte do processo, por isso é tão importante se capacitar para minimizar os riscos do caminho. Aprender com pessoas que já passaram por esses desafios faz com que a gente pule etapas de risco”, indica.

Conhecida como “a menina do Vale do Silício”, Isabel Pesce Mattos é uma especialista no tema e foi considerada uma das cem pessoas mais influentes pela revista Época e um entre os 30 jovens mais promissores do Brasil pela revista Forbes. Para ela, o empreendedorismo no Brasil está passando por um processo natural de amadurecimento e, cada vez mais, todos os envolvidos no ecossistema empreendedor, incluindo aceleradoras e investidores, têm aumentado a sofisticação dos seus aprendizados e ações. “Temos, sim, um ambiente dinâmico de negócios, mas a quantidade de cases de sucesso, principalmente no mundo de start-ups, ainda é baixa. Tem muita gente trabalhando para mudar isso, mas ainda temos grandes entraves estruturais e comportamentais que nos impedem de subir nesse ranking. Na minha concepção, crise é simplesmente a sensação de falta de recursos. Em um momento como esse, saber olhar para os recursos que tem, se adaptar rapidamente e resolver desafios pode trazer, sim, ótimas oportunidades”, avalia.

Crowdfunding
A economia colaborativa ou compartilhada está promovendo uma enorme mudança nas relações de consumo em todo o mundo e em diversos segmentos. Serviços, entretenimento, transporte, hospedagem e o próprio varejo foram os primeiros setores impactados. Estima-se que esse mercado já movimenta cerca de US$ 15 bilhões e que, em 2025, esse volume chegará a US$ 335 bilhões.

A internet pode ser uma excelente aliada na hora de buscar alternativas de financiamento para realizar projetos que ainda estão no papel. Por meio de plataformas colaborativas, muitas pessoas ou equipes já estão cadastrando seus projetos e conquistando o apoio de diversos colaboradores para sua realização. Trata-se do chamado crowdfunding ou financiamento coletivo.

Os volumes dessas transações estão tão altos que forçou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a publicar recentemente a Instrução 588, que, em linhas gerais, estabelece regras para as plataformas de financiamento coletivo. Entre outras medidas, a empresa que recebe o dinheiro do investidor é obrigada a implantar uma gestão profissional. De acordo com o texto, a regulamentação permite que empresas com receita anual de até R$ 10 milhões realizem ofertas por meio de financiamento coletivo na internet, sem a necessidade de registro na CVM. A ideia é desburocratizar esses investimentos. Além disso, a comissão passou a supervisionar as plataformas e estimular a gestão profissional em empresas pequenas e recém-formadas, uma vez que obriga a implantação de modelos de compliance e governança corporativa.

Há várias plataformas diferentes. No Brasil, destacam-se as de crowdfunding em geral e as de nicho. O primeiro tipo inclui sites mais amplos que aceitam projetos diversos, enquanto o segundo se divide de acordo com o ramo de negócio. Normalmente, tem-se uma curadoria para avaliar os projetos que podem entrar no site. Em seguida, são definidos o prazo de captação, a meta financeira e as recompensas (produtos e serviços oferecidos para quem apoiar o projeto, de acordo com o valor colaborado). Se o projeto atinge a meta no prazo estipulado, ele é considerado bem-sucedido e o realizador recebe o dinheiro. Se não, o valor é devolvido aos apoiadores.

O Catarse é o primeiro e maior site de financiamento coletivo do país. De acordo com os mantenedores, cerca de 422 mil pessoas já apoiaram pelo menos um dos 5.380 projetos financiados pela plataforma, totalizando R$ 66 milhões. Bel Pesce já foi beneficiada pela plataforma e garante que o financiamento coletivo serve como uma boa opção, principalmente para validação do produto. “Quem contribui não só garante que será um dos primeiros a possuir o produto, como também passa a fazer parte dessa comunidade de quem ajudou o projeto a existir. Vale lembrar que, na maioria das vezes, quem participa do financiamento coletivo são pessoas que confiam no empreendedor ou que realmente se apaixonam pela ideia de ser um dos primeiros a ter um produto”, analisa.

Outra característica dos novos empreendedores é a aposta em espaços de coworking, que se multiplicam pelo país. Ao pé da letra, trata-se de algo produzido com outras pessoas, em conjunto, com contribuição. A proposta de dividir o mesmo ambiente ultrapassou a premissa de compartilhamento físico e foi exponencializada pela troca de serviços, ambientes de trabalho mais informais e viabilidade financeira de empreender. São espaços com maior flexibilidade de pagamento – pode incluir um pacote mensal de serviços ou pagamento por tempo de uso. São 378 endereços ativos no país, de acordo com o Censo Coworking Brasil 2016. O número é 52% maior do que em 2015, um reflexo dos novos empreendedores, representantes de uma geração mais fluida e hiperconectada.

A vez delas
A pesquisa GEM 2016 trouxe um dado inovador: pela primeira vez, as mulheres brasileiras estão à frente dos homens na criação de novos negócios, mas, quando se trata de negócios já estabelecidos, elas mostram presença menor. Segundo o estudo, em 2016, a taxa de empreendedorismo entre os que tinham um negócio com até três anos e meio de existência ficou em 15,4% entre as mulheres e 12,6% entre os homens. A taxa de empreendedores estabelecidos, ou seja, que tocam um negócio há mais de três anos e meio, ficou em 19,6% entre os homens e 14,3% entre as mulheres.

A pesquisa revelou também que as mulheres empreendem por necessidade mais frequentemente do que os homens. No grupo feminino, 48% delas afirmaram ter buscado o empreendedorismo porque precisaram; no masculino, esse percentual caiu para 37%. Esse movimento de entrada de mulheres na atividade empreendedora pode ser explicado pela sua necessidade de complementar a renda familiar, visto que, em tempos de crise, o empreendedorismo é uma alternativa para vários brasileiros que perderam o emprego ou buscam uma renda extra. No caso das mulheres, a solução pode ser mais viável que um emprego com horário rígido, pois muitas precisam cumprir a chamada “jornada dupla”.

A pesquisa do Sebrae traçou, ainda, um perfil dessas mulheres. De acordo com o estudo, 40% delas têm até 34 anos; já entre os homens, esse número cai para 36%. Apesar de elas serem mais escolarizadas, ganham menos: 73% recebem até três salários-mínimos, contra 59% do universo masculino. O levantamento também revelou que quase metade das empreendedoras iniciais atua em apenas quatro atividades, enquanto a mesma proporção de homens está concentrada em nove. As mulheres abrem empresas que atuam com serviços domésticos, cabeleireiros e tratamento de beleza, comércio varejista de roupas e acessórios e serviços de bufê e de comida preparada.

 

Três perguntas para Luiza Trajano

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Luiza Trajano, empresária e também dirigente do Grupo Mulheres do Brasil (GMdB),

O nome de Luiza Trajano é unanimidade quando se fala sobre empreendedorismo feminino. Com trajetória singular e à frente de uma das maiores redes varejistas do país, a empresária também dirige o Grupo Mulheres do Brasil (GMdB), associação idealizada por ela e que atua em diversas frentes, como combate à violência contra a mulher e à discriminação racial, incentivo ao empreendedorismo feminino, formulação de políticas públicas, educação, cultura, saúde, entre outras. Ao associar-se com organizações não governamentais e ser interlocutor com atores governamentais, o grupo contribui para a superação de desafios, por meio do estímulo à educação, ao empreendedorismo e à participação na tomada de decisões que envolvam toda a sociedade. Confira a conversa que a revista Varejo s.a. teve com ela, exclusivamente sobre empreendedorismo feminino.

Qual é a sua percepção do mercado para o empreendedorismo feminino?
Eu acho que a mulher encara mais desafios que o homem. A gente sempre tem que ser mais competente; podemos errar, mas temos que “errar menos”. Ainda há muita desigualdade no mercado, precisamos falar sobre a diferença de salários e destacar o esforço das poucas mulheres que estão alcançando o topo das suas empresas. Da mesma forma, apesar de termos muitos desafios, acredito que hoje o mercado de trabalho está mais favorável para a mulher. Hoje, o perfil das empresas que dão certo tem uma característica feminina, que é a capacidade de escutar. Antes, as empresas funcionavam diferente, de modo mais mecânico, todo mundo era tratado apenas como uma peça e hoje não é mais assim. Então, vejo a mulher mais preparada para lidar com essa empresa mais orgânica. Acho que o mais importante é a união e o equilíbrio para ter sucesso nos negócios. Temos que acreditar que o Brasil depende de todos nós, homens e mulheres.

Como encara esse movimento empreendedor crescente no país?
O Brasil é, por natureza, um país que tem espírito empreendedor. Se você olhar e conhecer as histórias de empreendedores pelo país afora, verá muita dedicação, muito suor e muita certeza dos objetivos do negócio. Acho que o empreendedor precisa ter paixão pelo que faz e saber que, em tudo em que nos atiramos, vamos pagar um preço. Além do negócio em si, acho extremamente importante manter o alinhamento com a equipe e foco no cliente.

E a crise econômica, como o varejo pode recuperar-se?
Lógico que o momento econômico atrapalha, principalmente a pequena e média empresa, mas o varejo vem se recuperando bem. Você viu os últimos resultados do semestre do varejo? A gente teve um crescimento, porque o varejo já lidou com tantas crises. É sempre esse setor que é o primeiro a sofrer, mas também o primeiro a reagir, porque a gente aprendeu a reagir assim em outras crises pelas quais passamos. A resiliência é uma característica do empreendedor brasileiro e eu acho que é isso que leva a gente a vencer tantos desafios. Então, é a hora de ter muita determinação, muito foco na venda, que vai dar tudo certo.

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