3 de novembro de 2018
Todos somos passageiros
por Hilaine

Quase consigo bons lugares no avião. Mas aí em um dia você está sentado na poltrona do meio. Cheguei antes de todos e me vejo a espera das minhas companhias – direita e esquerda. Este estado me faz prestar atenção em muita coisa, é um momento de tensão e começo a me ver tendo pensamentos completamente inapropriados, porém legítimos.

Uma guerra interna incontrolável toma conta da minha mente. Quase que uma ode ao politicamente incorreto se apropria de mim. Porém, reluto e tento de fato, com consciência exercitar a empatia para que ela se faça presente e tente equilibrar a luta moral que se instalou em mim. Tenho certos desejos levando em consideração a minha conveniência e conforto, ao mesmo tempo vejo nascer dentro de mim uma torcida organizada onde todas as minhas células fazem coro. Olho para o relógio a cada minuto na expectativa que a porta feche e o embarque se encerre – ainda estou no meio, porém sozinha.

Uma leva de passageiros começa a entrar e analiso minuciosamente cada um. Tem criança? Tem bebê no braço? É gordo? É ansioso demais? Fala alto? Está usando perfume forte? Será que vai estar suado ou cheirando a cigarro? Estão em duplas e irão conversar o voo inteiro? Vai jogar game barulhento por 1 hora? Ah não!

Aí lembro que meu espaço e direito terminam onde a do outro começa. A tecnologia me salva com os fones de ouvido, óculos escuros e um chocolatinho meio amargo faz minha experiência melhorar. Não escuto mais nada apenas Nina Simone que canta macio no meu ouvido.

Será que sou o único monstro desse avião ou um ser humano sincero a ponto de dizer o que quase ninguém tem coragem de revelar? Talvez um pouco dos dois, sou de centro. No assento e da ideologia. Ponto.

Fica a dica para tempos atuais, nem tudo que podemos fazer nos dá o direito de assim proceder, certo? Há de haver um controle e uma contínua e incansável vigilância de nós mesmos. Viver em sociedade é lidar com a diferença seja ela em que instância for. O que a gente ganha de fato alimentando o descaso, o individualismo e a falta de entendimento?

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