2ª edição
Especialistas debatem o atual perfil das crianças e como a tecnologia interfere nessa formação

Psicólogo Cícero Menezes, pedagoga Juliana Diniz e mãe Natália Arruda

Até pouco tempo atrás, as crianças não participavam da conversa de adultos. Hoje, superexpostas à propaganda e bem informadas sobre o universo do consumo, elas interferem não apenas na escolha de produtos infantis, mas também nas compras dos adultos. E ajudam em importantes decisões como viagens, brinquedos, roupas, alimentação, diversões etc.

De acordo com especialistas, esse novo perfil do público infantil vem sendo formado devido à facilidade ao acesso à tecnologia e à informação que encontramos atualmente. Com isso, as crianças têm noções exatas de conceitos como caro, barato, pobre, rico e dinheiro, e demonstram preocupação com assuntos sobre política e meio ambiente.

Para alguns profissionais, esse avanço pode ser visto de forma positiva, mas é preciso que haja limites em relação ao uso da tecnologia.

Confira o debate entre a diretora pedagógica do Colégio Sigma, Juliana Diniz; a mãe e sócia da Vila Animada, Natália Arruda; e o psicólogo Cícero Menezes.

Geração Digital


O que a gente enxerga é que temos hoje uma geração digital mesmo e acho que esse é um movimento irreversível, veio para ficar e não é um bom caminho a gente negá-lo. Nesse cenário, o legal e importante é o quanto essas características novas dessa geração nos obrigam a uma reflexão. A tecnologia, o mundo digital e essa infinidade de recursos, como tudo na vida, tem dois aspectos: o positivo e o negativo. Aí, o papel de cada um de nós, que atuamos na formação das crianças, seja dentro de casa, nas escolas ou no comércio, é enxergar de que maneira podemos tornar isso uma ferramenta positiva no processo de desenvolvimento dessas crianças

Juliana Diniz

Eu, como mãe e sócia de uma brinquedoteca, procuro enxergar essa nova era de forma positiva. Mas, ao mesmo tempo, busco fazer com que as crianças experimentem outras brincadeiras que não envolvam a tecnologia. Aqui na loja, temos apenas uma posição de videogame. Essa foi uma decisão nossa, desde o início, e que percebo que é compatível com os pensamentos de diversos pais que deixam seus filhos com a gente. Querem que as crianças brinquem, socializem, façam amigos. E isso é feito na rua, pois em casa, geralmente, estão no vídeo game, computador, tablets

Natália

Socialização


Hoje, observo uma dificuldade na socialização por conta da tecnologia. Essa geração dos anos 2000 para cá, a chamada geração alfa, já nasceu usando tecnologia. Lá atrás, quando a gente era criança e adolescente, as conversas aconteciam na rua, debaixo do bloco; as brincadeiras eram queimada e amarelinha; e a aula de educação física era aguardada com ansiedade. Atualmente, essas cenas são muito pouco vistas. Percebemos as crianças conversando sobre a rotina e vivendo as decisões de casa. Que bom que criaram o Pokémon Go e as pessoas estão se encontrando de novo nas ruas

Cícero

Mas precisamos pensar que temos uma reconfiguração muito diferente. Hoje, não encontramos mais tantas crianças brincando na rua, pois temos um perfil familiar também diferente, sobretudo, quando debatemos o atual papel das mães. Até 20 anos atrás, elas, de um modo geral, ficavam em casa e cuidavam das crianças. Agora, trabalham e representam grande parte da renda familiar. Nesse contexto, temos um número bem maior de crianças nas escolas ou sob os cuidados de terceiros que, via de regra, fazem a opção por aquilo que é mais encantador e menos trabalhoso. Ou seja, é muito menos trabalhoso oferecer um jogo fenomenal do que levar para brincar na rua

Juliana

As crianças estão se tornando mais adultas?


Não. Acho que elas estão vivendo em outro mundo, com uma nova forma de se socializar

Natália

Acho cedo a gente afirmar isso porque estamos exatamente em um ciclo de transformação de todo mundo

Juliana

Eu não sei se a gente está mediando e educando essa geração para ser adulta. O que é diferente é que ela está sabendo se informar mais e melhor

Cícero

Reinventando


O uso do celular ou de qualquer outro aparelho tecnológico em sala de aula não é autorizado, exceto aquilo que é ferramenta didática como o tablet no Ensino Médio. E aí, a inserção dessa ferramenta para nós foi um passo muito difícil de ser dado. Quando a gente decidiu usar o tablet como ferramenta didática, sentamos e debatemos isso por quase dois anos. Entendemos que a tecnologia já faz parte da vida deles e que poderia ser mais atrativo o processo de ensino à medida que é oferecida uma ferramenta que é a cara da atual geração dele. Hoje, temos indicadores muito relevantes: o índice de dispersão em sala de aula diminuiu

Juliana

Aqui, na brinquedoteca, também tenho que me reinventar muito. Aqui eles não têm muita opção de eletrônicos, então a nossa orientação é sempre de conduzi-los para os brinquedos. Procuramos resgatar brincadeiras antigas como amarelinha, jogo da velha, cabo de guerra, bambolê e elástico para tentar tirar o foco do eletrônico. Isso é bom até para o processo de desenvolvimento deles. O que percebemos é que as crianças respondem bem e têm curiosidade sobre como essas brincadeiras funcionam

Natália

Esses locais de entretenimento também contribuem para a formação educativa dessas crianças. Aqui, elas acabam aprendendo durante a brincadeira. Aprendem que é importante apagar a luz antes de sair, fechar a torneira, lavar o que sujou etc. Brincar é o momento mais rico da aprendizagem. E é brincando com outras pessoas que aprendemos até aonde vai o nosso espaço

Cícero

Tecnologia x Informação


Hoje, o recurso de internet é muito mais do que o recurso de informação. Ele é, sobretudo, um recurso de rede. Então, ao mesmo tempo em que no restaurante você tem pessoas que não conversam entre si, pois estão no celular em rede, no recreio também acontece isso. E essa concepção de rede tem trazido para mim um traço que está muito evidente e é fenomenal: o fato das pessoas estarem construindo um conceito muito mais híbrido de relacionamento. A geração de hoje vai ser muito mais tolerante a casais homossexuais do que a minha geração. E ai, não estou entrando no julgamento de isso ser certo ou errado, mas da tolerância em relação às diferenças e a convivência

Juliana

A tecnologia não é só o tablete e o videogame. É a gente conseguir saber o que está acontecendo do outro lado do mundo. Hoje, eu peguei minha filha na escola e ela me perguntou o que tinham resolvido sobre o impeachment da Dilma. Ela tem apenas dez anos. Então, percebemos que as crianças estão mais conectadas, percebendo e lendo o mundo a sua volta

Natália

É necessário limitar o tempo de uso da tecnologia?


Quando se trata de um ser que está em desenvolvimento, a rotina é necessária, e o tempo do brincar, do estudar, do comer, da higienização e do uso de um recurso tecnológico precisa ser sempre acordado com a família, pois nenhum sujeito se constitui com uma única frente. Então, acho que isso é necessário

Juliana

É importante entender que precisamos formar uma criança que saiba o que é a regra. E, com esse ponto estabelecido de forma clara, ela não vai discordar do que foi combinado. O que não podemos é deixar uma coisa solta e sem explicação, pois ela vai questionar essa decisão. A ideia de um processo de desenvolvimento e de formação de personalidade de um sujeito é que se coloque limites e diga porque dali não pode ultrapassar. É dessa forma que criamos pessoas saudáveis

Cícero

Cada um de nós precisa ajudar essa geração a entender e dosar o uso dela. Quando você tem a regra clara, eles próprios já se organizam para isso. Tem aquele que tenta burlar a regra, mas é uma parcela muito pequena

Natália

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