22ª edição

 

Foram dez dias de paralisação e o caos se instalou. Filas quilométricas em postos de combustíveis, desabastecimento em supermercados, risco de falta de produtos hospitalares, problemas de mobilidade, atrasos em entregas e reflexos nos índices econômicos. A paralisação dos caminhoneiros, no fim de maio jogou luz sobre a crítica situação da logística nacional. Entre os principais motivos da mobilização estavam a alta do preço do diesel, insatisfação com a política de preços adotada pela Petrobras e o alerta para a excessiva carga tributária que corresponde a quase 70% do valor do combustível cobrado nas bombas.

 

Apesar de legítimo, apoiado por classes empresariais e solidarizado por todo cidadão que sofre com as taxas tributárias, as consequências do movimento foram além do imaginado. A paralisação teve reflexos que ainda estão sendo contabilizados. De acordo com a pesquisa semanal Focus, do Banco Central, divulgada no dia 11 de junho, o Brasil crescerá menos de 2% neste ano e, pela primeira vez em quase cinco meses, o órgão reduziu as estimativas para 2019. A pesquisa mostrou que as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano recuaram de 2,18% para 1,94%. E uma das razões apontadas foi a paralisação de maio.

 

Mas como chegamos aqui?

A crise desencadeada escancarou a dependência do transporte rodoviário. De acordo com dados do Banco Mundial, 58% do transporte de cargas e passageiros no Brasil é feito por rodovias. No comparativo com outras economias mundiais, ganhamos da Austrália (53%), China (50%) e da Rússia (43%).

 

Mais dados alertam para a falta de investimentos em outros modais. De acordo com a pesquisa Custos Logísticos no Brasil, da Fundação Dom Cabral, a malha rodoviária é utilizada para o escoamento de 75% da produção no país, seguida da marítima (9,2%), da aérea (5,8%), da ferroviária (5,4%), da cabotagem (3%) e da hidroviária (0,7%). A grande fragilidade relacionada a logística brasileira revela que boa parte da nossa produção está nas mãos de uma infraestrutura que depende totalmente do sistema de transporte rodoviário, sendo o mais impactante que outros sistemas tais como ferroviário, aéreo e marítimo também dependem do rodoviário para os combustíveis.

 

Historicamente já conhecemos a intenção dos políticos que abrem estradas a cada início de mandato. A obra é mais barata, é visível e dá voto. Governantes brasileiros nunca priorizaram outros tipos de sistemas de transporte porque não tem impacto eleitoral.

 

Para o consultor e mestre em transportes pela Universidade de São Paulo, Sergio Ejzenberg, o Brasil chegou a esse modelo de dependência quase total de rodovias em função de décadas de decisões “desastrosas” e não tem como mudar esse quadro no curto prazo. “Precisamos de menos ingerência política nas decisões técnicas que envolvem a logística de transportes. O Brasil tem dimensões continentais e produz quantidades de commodities, tanto agrícolas como minerais, que precisam ser transportadas por meios razoáveis e racionais, não apenas por caminhões”, afirmou.

 

Soluções burocráticas

Para aliviar a tensão, e atacar um dos muitos problemas revelados com a crise, a discussão sobre a tabela de frete parece longe de um desfecho consensual. Mas outro passo foi dado. No dia 20 de junho, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta que cria um novo marco regulatório para o transporte rodoviário de cargas no País (PL 4860/16). O texto aprovado define regras para a contratação de transportadores, para segurança nas estradas e para a contratação de seguros em caso de acidentes, perda de mercadoria, furtos e assaltos. O texto ainda terá que passar pelo Senado Federal.

 

Em outra frente, o Plano Nacional de Logística está em discussão no governo federal. Com a utilização do banco de dados mais completo do setor de transportes, o trabalho elaborado pela Empresa de Planejamento e Logística (EPL) apresenta um diagnóstico da logística brasileira e prevê os empreendimentos necessários para otimizar a infraestrutura até o ano de 2025. A proposta ficou em consulta pública até abril e segue em discussão no Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil.

 

Comportamento do comércio e varejo

Segundo cálculos da Confederação Nacional do Comércio, entre os dias 21 de maio e 4 de junho, somente nos segmentos de supermercados (R$ 2,8 bilhões) e de combustíveis (R$ 2,4 bilhões), o varejo perdeu R$ 5,2 bilhões apenas em cinco estados. A sensação de desabastecimento é mais forte no comércio de bens duráveis, no qual 17,2% dos entrevistados relataram níveis baixos dos estoques nas lojas, contra 15,4% na média do trimestre anterior às paralisações

Os problemas de abastecimento em algumas cidades provocaram corrida aos supermercados, e muitas pessoas estocaram comida e outros itens em casa. Pegando carona na situação, alguns comerciantes extrapolaram seus preços, levando a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) a emitir uma nota pública repudiando a prática e solicitando compreensão e solidariedade com a população. “Prudência e senso de coletividade são fundamentais neste momento. Reprovamos qualquer iniciativa dos que queiram se aproveitar da preocupação dos brasileiros com o desabastecimento de itens perecíveis para aumentar o preço de produtos, em especial os de primeira necessidade. Mais do que nunca temos que ser cidadãos”, alertava a nota.

 

A prática de preços abusivos é suscetível a penalidades da parte de órgãos de defesa do consumidor e de fiscalização. Os principais canais de denúncia e fiscalizadores na ponta são os Procons de cada estado, que fazem a análise para identificar se há prática abusiva. Nesta averiguação, podem ser considerados o preço (como um valor que dobrou em questão de dias, por exemplo) ou outros fatores, como a margem de lucro. Os Procons podem multar diretamente o comerciante ou autuá-lo, exigindo explicações. O Código de Defesa do Consumidor prevê outras sanções além da multa, como advertências e até mesmo o fechamento do estabelecimento.

 

Soluções criativas

A paralisação afetou também os negócios que dependem de entregas e muitas empresas tiveram que usar de criatividade para poder continuar a prestar seus serviços. Em Planaltina, no Distrito Federal, a hamburgueria 389 Burger, recorreu a uma ação inusitada. Substituiu as motocicletas por cavalos, garantindo assim a continuidade do serviço de delivery. “Ficamos totalmente sem combustível e, para não deixar os clientes na mão, emprestamos dois cavalos de um haras de um amigo aqui na região e deu muito certo. A repercussão foi bem legal”, disse Júnior Tadayoshi, sócio fundador da lanchonete. O serviço de “cavaloboys” funcionou e a empresa conseguiu fazer a entrega de 20 pedidos no primeiro da implantação do novo método.

 

Outra empresa que viu seu faturamento crescer nos dias da paralisação foi a We Stuff, especializada em entrega com bicicletas. Atuando no raio de 20 quilômetros da sua sede, na capital paulista, a empresa viu sua demanda pular de 600 para duas mil entregas por dia. São 120 clientes fixos, a maioria e-commerces. Durante a paralisação, o time de 50 ciclistas contratados recebeu reforço de mais 70, que são ciclistas reservas, treinados para atender em datas especiais e comemorativas, como o dia das mães e natal. Com o aumento da demanda, o faturamento triplicou. “A lição que fica é que você tem que diversificar. Diversificar investimentos, alimentação e quando tiver esse problema você não pode depender de um só modal e a bike é de fato o meio necessário e viável para a cidade de São Paulo”, afirmou o empresário Victor Castello Branco.

 

Click and Collect

Uma estratégia multicanal que é tendência no varejo mundial e pode ajudar na questão logística de entregas no Brasil é o Click Collect. A experiência diminui a distância entre os mundos físico e virtual no varejo. O cliente escolhe pela internet o que deseja comprar, seleciona e escolhe quando e onde irá retirar o seu produto.

Durante a BR Week, a consultoria MindMiners e a Shopper Vista apresentaram o estudo “Click&Collect. Pesquisa Nacional com Consumidores e Grandes Varejistas”. Apesar do fato que as pessoas que compram pela internet e recebem em casa serem grande maioria, o número de pessoas que já retiram nos correios ou em algum tipo de transportadora junto com quem tira na loja física já é 20%, segundo o estudo.

 

Produtos comprados com mais frequência na internet, como livros, jogos e vestuários, têm potencial para promover uma alavancagem nos serviços de click and collect no varejo nacional. De acordo com a consultoria, a popularização do click and collect reduz problemas com roubo de cargas, gastos com transportadoras e em situações especiais como a da paralisação dos caminhoneiros.

 

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