9ª edição

Gestão municipal responsável, participação do associativismo comercial, indicadores sociais, cultura empreendedora e planejamento são uma combinação valiosa para compor um bom lugar para o varejo

O que faz de uma cidade um bom lugar para os negócios? Além das condições de abertura de empresas, que outros fatores tornam um local adequado ao desenvolvimento do varejo? Como as cidades e os próprios cidadãos podem criar um movimento favorável à retomada do crescimento econômico? Todas essas perguntas embasaram uma busca pelos aspectos que fortalecem o uso dos espaços urbanos brasileiros para um comércio próspero.

Alguns estudos nortearam nosso caminho: a Endeavor, instituição que favorece o empreendedorismo em todo o mundo, criou um guia chamado Índice de cidades empreendedoras, que mapeia os esforços municipais no Brasil para melhorar o ambiente de negócios e cultivar o espaço empreendedor. Além disso, a consultoria Macroplan desenhou um Índice de Desafios da Gestão Municipal e vem acompanhando cem cidades brasileiras e seu desempenho ao longo dos anos. Os resultados dos estudos mostram que a combinação entre ações públicas e privadas, associativismo e indicadores sociais favoráveis faz de uma cidade um ambiente fértil para a tão desejada retomada do crescimento no varejo. Seja em avenidas comerciais ou na rua, seja em grandes investimentos e shoppings, o que os comerciantes querem é voltar a vender. Vamos olhar para os bons exemplos, os indicadores e as boas práticas e trazer histórias bem-sucedidas para inspirar o mundo do varejo.

 

RANKING DAS CAPITAIS

 

As 10 melhores para se viver no Brasil

1º Curitiba

2º Florianópolis

3º Vitória

4º Belo Horizonte

5º São Paulo

6º Palmas

7º Campo Grande

8º Rio de Janeiro

9º Goiânia

10º Porto Alegre

Fonte: Índice de Gestão Municipal 2017 –Macroplan.
Nota: A cidade de Brasília não foi contemplada no ranking.

As 10 melhores capitais para empreender

1º São Paulo

2º Florianópolis

3º Vitória

4º Porto Alegre

5º Belo Horizonte

6º Rio de Janeiro

7º Curitiba

8º Brasília

9º Recife

10º Aracaju

Fonte: Índice de Cidades Empreendedoras 2016.

 

 

Bons exemplos – de norte a sul

O relatório da Endeavor, de 2016, mostra Porto Alegre como um exemplo de empenho para reduzir a burocracia para abertura de empresas. Em 2015, eram mais de 200 dias para registrar um negócio na capital gaúcha, mas, desde o fim de 2016, empresas de baixo risco podem fazê-lo em até cinco dias. “O caso de Porto Alegre é um exemplo de política pública cada vez menos raro, mas o caminho para melhorar as condições para que os empreendedores possam crescer ainda é longo: menos de 1% das empresas do país conseguem crescer acima de 20% ao ano por três anos consecutivos. Ainda que pouquíssimas, essas empresas, chamadas scale-ups, são responsáveis por gerar quase metade dos novos postos de trabalho na economia brasileira – criam quase cem vezes mais empregos do que a média no Brasil”, diz o diretor da Endeavor, Juliano Seabra.

No Norte do país, Belém e Manaus foram as únicas cidades analisadas pelo estudo da Endeavor. “Ainda existem disparidades regionais importantes”, explica Seabra. No entanto, a importância e a valorização do empreendedorismo na região são bastante valorizadas. Em Manaus e Belém, por exemplo, 77% e 76% dos residentes, respectivamente, acreditam que o empreendedor ocupa uma posição reconhecida e respeitada na sociedade. Essa inclinação ao empreendedorismo pode estar contribuindo para as excelentes posições que as duas cidades ocupam nesta edição no pilar de mercado e as posições crescentes no pilar de inovação.

“Para que cada vez mais empresas possam crescer, trazendo com elas inovações e gerando oportunidades para todos, é preciso identificar as principais forças e desafios de cada cidade. Assim, gestores públicos e organizações de apoio (universidades, empreendedores, mídia) poderão agir de forma precisa, conhecendo bem os desafios e os indicadores que refletem o ambiente empreendedor e tendo acesso a bons exemplos nacionais e internacionais que ajudem a acelerar a transformação do cenário atual”, revela o estudo.

Nesse sentido, a consultoria Macroplan buscou índices que refletissem o desempenho das cidades e gestões municipais para vencer seus principais desafios: educação, cultura, saúde, segurança, saneamento e sustentabilidade. A gestão fiscal e a transparência também foram observadas nas cem maiores cidades brasileiras, em termos de população. “São municípios com mais de 260 mil habitantes e representam metade do PIB brasileiro”, explica a economista Adriana Fontes, uma das coordenadoras da segunda edição do estudo. “Tentamos mapear os fatores que estão sob a responsabilidade da administração municipal. Na hora da crise, a prefeitura é a gestão que está mais próxima da população. Na situação em que o poder público vive hoje, em crise, é fundamental definir bem as prioridades dos recursos. Isso faz a diferença. Este é um momento propício para inovar nas políticas, gerir com base em evidências e fazer escolhas de políticas que têm maior impacto na população”, define Adriana.

Ambos os estudos buscaram as boas experiências das cidades em destaque e valorizaram práticas que podem influenciar e melhorar a gestão em outros locais. A cidade de São Paulo destacou-se nos dois estudos, mas é um caso bastante atípico e diferente das cidades brasileiras. Conheça o exemplo de algumas cidades menores.

 

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Maringá – cidade planejada

André S. Macedo via Visual

Maringá – PR
397,4 mil habitantes
IDHM: 0,808 – muito alto
PIB per capita: R$ 36.337
Associação Comercial: 4,7 mil associados

A cidade paranaense está no topo do ranking das melhores cidades para se viver, segundo estudo da Macroplan. Maringá foi planejada desde a sua colonização, na década de 1950, quando uma companhia inglesa vendeu lotes de médio porte e contratou o urbanista paulista Jorge de Macedo Vieira para conceber um projeto com o conceito de “cidade-jardim”.  Em 1953, a classe empresarial também se uniu para dialogar com a gestão pública e fundou a Associação Comercial e Empresarial da cidade (ACIM). Embora a cidade não conte com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), a ACIM é parte do Sistema CNDL, por meio de parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) – 55% dos 4,7 mil associados na cidade utilizam o serviço de consulta ao crédito e outros produtos do SPC Brasil, como benefício de sua associação.

A data de aniversário da cidade foi escolhida pela iniciativa privada e o principal monumento, a Catedral Basílica Nossa Senhora da Glória, também foi construída com a ajuda da comunidade,  lembra o presidente da ACIM, José Carlos Valêncio. “Desde o início, a sociedade envolveu-se em questões cruciais para o desenvolvimento, ajudando a nortear as políticas públicas e de planejamento urbano”, afirma. A cidade é um polo educacional, tem mão de obra qualificada e atrai empresas também do setor de tecnologia.

Maringá também está no topo do ranking das cidades brasileiras com maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), indicador das Nações Unidas para avaliar a qualidade de vida da população – ocupa a 23ª posição. Ainda, é um importante polo atacadista de confecções. Os empresários da cidade estão atentos à gestão municipal e participam da vida da cidade. “As entidades e organizações maringaenses da sociedade civil têm bom entrosamento e fazem articulação conjunta de projetos importantes para a cidade. O setor público também tem feito sua parte, investindo em desenvolvimento econômico – em 2013, 22% do orçamento e, em 2016, 14% do orçamento. Esses fatores tornam a cidade atrativa para se viver e para empreender”, destaca Valêncio.

Gestão participativa – Os lojistas e empresários de Maringá, por meio da ACIM, estão presentes em vários conselhos municipais. “Quando necessário, a entidade manifesta-se contrária à administração pública e a favor da comunidade”, diz o presidente. Alguns exemplos de sucesso são o Conselho Comunitário de Segurança, que existe há mais 30 anos, e o Observatório Social, criado em 2006. Em dez anos, houve proveito econômico de mais de R$ 100 milhões em valores atualizados, segundo a ACIM. O observatório virou uma iniciativa premiada e foi replicada em cem cidades brasileiras.

 

Características de uma boa cidade

O arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl criou 12 critérios de avaliação para um espaço urbano, baseado nos eixos: conforto, proteção e desfrute. Apesar de subjetiva para cada cidadão, a avaliação pode nortear planejadores urbanos e gestores públicos. Os conceitos também podem se aplicar a estabelecimentos ou avenidas comerciais.

Proteção

  1. Prevenção de acidentes.
  2. Combate ao clima e violência.
  3. Abrigo contra intempéries, ruídos e experiências desagradáveis.

Conforto

  1. Caminhadas.
  2. Paradas.
  3. Descanso.
  4. Contemplação.
  5. Interação.
  6. Exercício e lazer.

Desfrute

  1. Bom tamanho (prédios e espaços feitos para a escala humana).
  2. Clima propício.
  3. Experiências sensoriais.

 

Juazeiro do Norte – tradição cultural e localização geográfica

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Juazeiro do Norte – CE
266 mil habitantes
IDHM: 0,694 – médio
PIB per capita: R$ 14.334
CDL: 800 associados

A terra de Padre Cícero sempre teve uma localização estratégica na região Nordeste. Equidistante de quase todas as capitais da região, a cidade sempre atraiu viajantes de todos os lugares. Mesmo hoje, o aeroporto regional tem um crescimento expressivo – movimentou 540 mil passageiros em 2016. Nas rodovias, o fluxo também é intenso. Segundo o secretário de Desenvolvimento e presidente da CDL Juazeiro do Norte, Michel Araújo, são 700 a 900 vans diárias das cidades vizinhas.

Essa população flutuante não vem apenas em busca de milagres – existem seis grandes romarias no ano. O comércio local também se tornou um polo de atração: cerca de 83% do Produto Interno Bruto (PIB) do município é gerado pelo setor de comércio e serviços, segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).

“Juazeiro cresceu única e exclusivamente por meio da iniciativa privada. No passado, existia pouco diálogo com o setor público. Viam o setor de comércio e serviços apenas como pequenos negócios”, diz o presidente da CDL. Nas últimas eleições municipais, a Câmara convidou todos os candidatos a apresentar seu plano de governo e as ações específicas para o comércio. “Nessa jornada de integração, mostramos aos candidatos a importância do setor para o PIB da cidade e eles passaram a nos enxergar melhor”. Juazeiro é o terceiro maior polo calçadista do país, sendo a indústria responsável por 16% do PIB – não apenas no setor de calçados.

O próprio padroeiro da cidade, Padre Cícero, dizia, há 106 anos: “Na sala de sua casa, você precisa de um altar. No quintal, de uma oficina para produzir”. Dessa forma, diz Araújo, incitava o empreendedorismo. O tema tornou-se uma prioridade na atual gestão municipal, que utiliza as universidades e centros de pesquisa para formar um Observatório de Empreendedorismo na região. A cidade também está engajada na Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, iniciativa da Frente Nacional de Prefeitos para estimular o uso da tecnologia em benefício da administração municipal. O próximo passo é instalar Wi-Fi nas praças da cidade e monitorar os hábitos da população para integrar com os demais serviços públicos, como cultura, educação, lazer e esportes.

 

Para saber mais:

Índice das Cidades Empreendedoras 2016 – Endeavor Brasil: https://endeavor.org.br/indice-cidades-empreendedoras-2016/

Desafios da Gestão Municipal 2017 – Macroplan: https://www.desafiosdosmunicipios.com/

 

Como avaliar o ambiente empreendedor

O estudo da Endeavor avaliou diversos fatores e mapeou 32 cidades em 22 estados.

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