16 de abril de 2019
Páscoa é tempo de renovar nossa capacidade de entender o outro
Luciana Lima por Luciana Lima

Às vezes, penso como seria o mundo se conseguíssemos manter a espontaneidade e a pureza de uma criança. Uma coisa é certa: teríamos menos preconceitos e aceitaríamos as diferenças de forma mais natural.

Com a proximidade da Páscoa, a questão da renovação vem à tona, tanto para quem segue uma religião cristã quanto para quem não segue, mas convive com todos os símbolos relacionados ao renascimento. Ovos, coelhinhos e cheirinho de chocolate, tudo isso nos remete ao significado cristão da ressureição, mas também à fartura da colheita, real significado da Páscoa antes do nascimento de Jesus.

Certa vez, minha curiosa sobrinha protagonizou uma cena inusitada em um supermercado. Era tempo da quaresma e os corredores estavam repletos de ovos metálicos e coloridos pendurados. Uma passarela com cheirinho de chocolate que deixava qualquer criança alucinada. Adultos também não estavam isentos do encantamento que invadia os sentidos.

Um funcionário do supermercado chamou a atenção de Isabela. Era uma mulher transexual que se esticava em meio à alameda de ovos pendurados. Ela a olhava fixamente, com um olhar de pura curiosidade diante do diferente, ou melhor, diante do que para ela, uma criança de quatro anos, não representava uma novidade fora do considerado normal: homem ou mulher.

De repente, uma pergunta arrancou sorrisos e surpresa diante da figura, com seios, roupas masculinas e traços ambíguos e fortes: “Tio, a senhora cortou o seu piu-piu?”. Por alguns instantes, pensei em interferir, mas como não houve por parte do “tio” uma reação de repulsa, deixei que ele respondesse. “Não, meu bem, eu já nasci sem meu piu-piu”, disse.

O curioso é que, de repente, com uma resposta curta e simples, Isabela se deu por satisfeita, com sua dúvida completamente resolvida, sem traumas ou mais questionamentos. Em sua cabecinha, ainda livre das caixinhas de classificação que desenvolvemos ao longo da vida, se formava um novo arquivo.

Com grande sensibilidade, o “tio” ainda deu prosseguimento à conversa e perguntou para Isabela qual ovo ela pediria para o coelhinho da Páscoa. “Quero aquele grande e rosa”, apontou. O “tio”, gentilmente, alcançou o ovo de chocolate com a estampa de princesa e entregou a ela. Isabela colocou no carrinho e partiu empurrando a vida em suas compras. Olhou para trás e mandou um beijo com suas mãozinhas gordinhas.

Se há algo a renovar na Páscoa, pensei, é mesmo nossa alma. Faria muito bem jogar fora as caixinhas que nos prendem a conceitos que só servem para classificar o ser humano e aprisionar nossa capacidade de entender a diversidade.

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