1 de maio de 2018
Para as não mães
Varejo SA por Varejo SA

Como muitas mulheres da vida moderna, escolhi não ser mãe. Não nos julgue, não há motivos que expliquem essa decisão que irão convencer toda a humanidade sobre esse fato. Há aqueles que podem considerar egoísmo, outros que podem pensar que não encontramos o “homem certo” e aqueles que sentirão pena de nós. Não é para ter pena. É para ter respeito! Ser mãe, diferentemente de tempos remotos, é uma decisão.

Vivemos numa sociedade matrifocal, que impõe às mulheres um ideal de maternidade, uma forma utópica, irreal e completamente desconexa com a realidade vigente. Ao mesmo tempo, o status de mãe oferta a essas mulheres poderes e privilégios: festas fofas, lugares de destaque, legitimidades, fila preferencial, vagas seletivas. Ser mãe deixou de ser um papel social para virar uma identidade, cá para nós, cada vez mais publicizada, vendida, explorada. Ser mãe virou negócio e, até mesmo, um desejo de consumo, sem pensar nas duras consequências que chegam com o pacote. A mulher (como indivíduo) ficou esquecida, mas a mulher-mãe ganhou um destaque tão grande que engoliu a outra, aquela que você costumava ser.

As mães que ainda lutam por seus direitos individuais sofrem as agruras do julgamento moral de terceiros. São tão pressionadas que criam perfis fakes nas redes sociais demonstrando dedicação exacerbada, quando, na verdade, sentem falta de si mesmas. Apesar de todo o amor envolvido na relação com seu rebento, elas precisam de uma aprovação pública; muitas vezes, juram para elas mesmas que valeu a pena, está valendo ou valerá. Oxalá!

Quando se é mãe, todos sentem o direito de se meter nas suas escolhas. As mais experientes viram conselheiras das novatas e lá se vão páginas e mais discursos de aconselhamento, dicas, informações sobre todos os temas relacionados aos cuidados dos filhos.

Dia desses, acompanhando um fórum de discussão sobre nutrição de bebês, percebi uma mãe sendo grosseiramente criticada por decidir não amamentar seu filho. Para as moderadoras do grupo, essa era uma atitude reprovável; “como assim negar ao seu filho o direito ao melhor leite?”. A vítima não era casada e tinha que trabalhar como autônoma para sustentar a casa e a família. Eu me compadeci dessa mulher, que chegou àquele grupo perguntando qual seria a melhor fórmula; ela estava vivendo um drama pessoal de profundas dimensões: a culpa.

Para uns, ela era menos mãe.

Mãe deixou de ser um papel identitário para virar uma categoria distintiva. Quem não é mãe é visto como um ser incompleto, aquele que nunca terá uma família, como se ter um filho atualmente fosse a garantia de cuidado e amor incondicional bilateral. Ledo engano. Vivemos uma utopia representativa e ratificada pela publicidade, pelas verdades que as outras mães não contam e pelas mentiras estampadas nas redes sociais e nos discursos, em que o sacrifício e a devoção imperam e garantem prazer, será?

Ser mãe é um processo de construção relacional focado na maternagem e essa expressão de carinho e cuidado pode ser dedicado a qualquer um: amigos, parceiros, cônjuges, pets etc.  Na verdade, ser mãe é o investimento contínuo em um relacionamento com um ser; precisa de tempo, interesse e, mais do que nunca, precisa ser de verdade. Neste Dia das Mães que se aproxima, evoco: menos clichês e mais respeito às mulheres, sejam elas cuidadoras de filhos paridos, filhos do coração, pets, pais idosos, familiares doentes etc.

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