4 de janeiro de 2019
Os sobreviventes da crise
Amanda Venício por Amanda Venício

Conheça as estratégias adotadas pelas iniciativas que escaparam da crise no mercado editorial

O ano de 2018 se encerrou em meio ao aprofundamento da crise no mercado editorial. Duas gigantes do setor, as redes de livrarias Cultura e Saraiva, entraram em processo de recuperação judicial, deixando uma dívida de mais de R$ 325 milhões com editoras. Nesse cenário, iniciativas que se mantiveram independentes das grandes livrarias conseguiram bons resultados em vendas.

É o caso do clube TAG Experiências Literárias, cujo número de assinaturas quase duplicou em 2018, de 21 mil para 40 mil. Até o fechamento desta edição, a expectativa de faturamento da empresa era de R$ 26 milhões, um crescimento correspondente a 73% em relação a 2017.

Lançada em 2014, a TAG Experiências Literárias atinge dois públicos diferentes. “Com a caixa de Curadoria, alcançamos um leitor mais exploratório, que quer conhecer autores diferentes e, com a caixa de Inéditos, o leitor que prefere uma literatura mais popular”, diz Arthur Dambros, diretor de Marketing do clube. O lançamento da assinatura de Inéditos, em abril de 2018, contribuiu para o crescimento no ano, levando a um aumento de 15 mil assinaturas.

Apesar do sucesso, os clubes de assinatura não devem substituir as livrarias. “Não considero a TAG uma concorrente das livrarias, porque são formas de consumo diferentes e complementares. Quando você vai a uma livraria, geralmente já sabe o que vai buscar. A motivação do consumidor para assinar o clube de leitura é sair da zona de conforto de uma forma divertida. Então, ele ainda pode usar o varejo tradicional para comprar livros fora do universo do clube”, diz.

Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, a editora Boitempo, fundada em 1996, perdeu uma parcela importante do mercado. Ainda assim, suas vendas acumuladas cresceram 28% em quantidade e 19% em valor durante o ano passado. “Isso demonstra que não é uma crise do livro e, sim, de gestão e de modelo de negócio. Para nós, não há razão, até aqui, para diminuir o ritmo”, afirma Ivana Jenkings, diretora geral da Boitempo.

“A maioria das editoras independentes criou nichos e, desse modo, se prepara melhor”, avalia. A Boitempo se consolidou com um público formado em grande parte por professores universitários e alunos de pós-graduação, graduação e ensino médio, assim como militantes políticos e dirigentes de movimentos sociais.

Para esses leitores, a qualidade é fundamental. “Buscamos zelar desde o texto aos aspectos visuais e qualidade gráfica da obra, o que contribuiu de forma decisiva para fidelizar leitores”, destaca. Além de atentar à curadoria do conteúdo, a editora produz edições com notas explicativas, índices onomásticos e textos complementares. A Boitempo conta também com um e-commerce próprio e investiu na comunicação nas redes sociais – o canal da editora no YouTube ultrapassa cem mil inscritos.


A editora Lote 42, fundada em 2012, não foi impactada pela crise graças a uma série de estratégias, como interromper as vendas para grandes redes assim que os pagamentos começaram a atrasar. “Não permitimos que a dívida escalasse a níveis exorbitantes. Acredito na harmonia nos departamentos das editoras. Não dá para o setor de vendas ficar vendendo sem uma luz verde do financeiro”, afirma João Varella, seu cofundador.

A Lote 42 conta com e-commerce próprio e a Banca Tatuí, espaço que inicialmente vendia apenas livros da editora e depois se expandiu para publicações independentes em geral, de diferentes editoras e autores. Além disso, participa de diversas feiras de publicações independentes pelo país, nas quais o público tem a oportunidade de estar em contato direto com os autores. “A editora tem no seu DNA o contato direto com o público. Essas feiras transformam a relação de consumo em mais do que um mero débito-crédito-tchau”, explica Varella. Em setembro de 2018, a editora inaugurou a Sala Tatuí, uma livraria cujo atendimento é com hora marcada: “Nesse formato, o atendimento é personalizado”.

Varella acredita que o cerne da crise está no modelo de negócio adotado pelas grandes redes. “Não é coincidência que as duas livrarias que resolveram ser varejo de tudo, incluindo eletrônicos, são as que pediram recuperação judicial. Se você coloca celulares na livraria, está competindo diretamente com varejistas especializados nisso. Não sei se as livrarias sabem lidar com um segmento tão rápido. Para mim, a culpa, nesse caso, não é do livro”, avalia.

Ainda assim, o fundador da Lote 42 acredita que o livro físico deverá se transformar nos próximos anos: “Para mim, o livro será – se já não é – o primeiro ex-meio de comunicação de massa. Vai virar algo mais segmentado. As pessoas já leem bastante no WhatsApp, no Facebook. O impresso vai precisar provar por que merece ser impresso, o que ele faz de diferente de um texto que poderia ser lido em PDF. Imprimir um livro vai ter um significado mais especial”.

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