4 de janeiro de 2019
Objeto de desejo: os grills que nunca uso
Hilaine por Hilaine

Curioso como as coisas fascinam e se tornam verdadeiros objetos de desejo. Durante um trabalho de campo realizado em um bairro popular na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde morei por oito meses com a finalidade de entender motivações que levam clientes da concessionária de energia elétrica a furtar ou fraudar o consumo de eletricidade, tive contato próximo com várias famílias do local.

Meus vizinhos pertenciam à chamada “nova classe média”, faziam parte de uma espécie de elite local e eram reconhecidos como tal por moradores de outras áreas. Gostaria de dividir com você, leitor, um pensamento acerca do uso dos objetos e o poder simbólico que exercem nas pessoas. Não, não pense que com você é diferente; os objetos mudam, mas os signos e o fascínio são os mesmos.

Certa vez, entrei na casa de uma vizinha – normalmente, a gente entrava pela cozinha. Ao olhar para uma prateleira, consegui avistar cinco grills de distintos formatos e cores; após perguntar, sua resposta foi que cada um servia a um propósito diferente: “Este aqui é só para carne (apontou um ‘George Foreman’); ao lado, o branco redondo é para pizza (grill da Shoptime); aquele outro ali é só para torrada; depois, é o de sanduíche; e, por fim, aquele ali serve para peixe e frango (um Black&Decker qualquer)”.

Diante da explicação dela, parei para pensar que, dependendo do grupo ao qual você pertença e do capital cultural que acumula, os objetos são vistos, usados e tratados de diferentes formas. Ela aprendeu, possivelmente na propaganda, que cada grill teria uma serventia, sendo que poderia ter apenas o redondo (de pizza) para fazer todos e mais outros tantos quitutes que desejasse.

Logo depois de me dar a explicação, minha vizinha complementou o raciocínio com um “quê” de tristeza e disse: “Apesar de ter esses grills, eu NUNCA uso eles não. Puxam muita luz, porque é resistência; é melhor continuar usando o fogão mesmo, porque é a gás e sai mais barato”.

O que percebi em meu trabalho de campo é que, ao adquirir um bem, os consumidores não pensam no gasto agregado. Pensam apenas no valor da parcela, mas não colocam na ponta do lápis os custos finais que o novo objeto de desejo (carros, TVs, boilers, grills etc.) vai acarretar.

Para tal, há três saídas no âmbito do consumo de energia elétrica: pagam a conta, deixam de usar o objeto ou fazem “gato” de energia para adequar a conta ao novo padrão e estilo de vida.

O consumo está para além da performance dos objetos, da sua utilidade prática. Usufruir suas imagens e o significado pessoal ou de grupo também são formas de consumo, respeitando suas lógicas racionais ou emocionais. O consumo não é um fim em si mesmo; para explicá-lo, se fazem necessárias camadas de entendimento e a pergunta que sempre nos orienta é “por quê”; então, parte-se das respostas mais simples às mais complexas para a construção dessa teia de significados, observando seus nós, emaranhados e complexidades estruturais. 

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