8 de janeiro de 2018
O “skatista” e a panela sem tampa na loja de cristais
Varejo SA por Varejo SA

Por Luciana Lima

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Fim de ano, férias, passeios em família e histórias que serão contadas cada vez que esta equação se repita, por toda a eternidade. Era dezembro e a expectativa era pelo baile de formatura do primo mais bonito, mais inteligente e, consequentemente, mais invejado, claro!

O calor úmido deixava o corpo mole, exceto o das crianças, que pareciam ligadas em geradores. Nada como o ar-condicionado de um shopping para aliviar a pressão e tirar a meninada de casa. E assim fomos.

Rodrigo, meu filho, menino de apartamento, daquele que, quando percebe um pouco mais de espaço, quer usá-lo por inteiro e de forma urgente. Sobrava energia. Não andava, só corria. Brincava de “skate”, acelerando e derrapando no espelhado piso de granito com o próprio tênis. Tomava distância, saía correndo, freava derrapando até cair, rolar, depois levantava e continuava seu percurso atlético. Nós, os adultos, teimávamos em manter o ritmo das vitrines.

A luz branca da loja de cristal deixava qualquer potinho ainda mais fascinante. Tudo muito distante daquelas lojas que exibem a repressora e indelicada plaquinha “Quebrou, pagou!”. Nas prateleiras internas, um festival de cores em panelas importadas com preços equivalentes a pelo menos um terço dos dias trabalhados em um mês. O colorido pescou minha visão por menos de cinco minutos.

Parada, na porta da loja, só desviei o olhar ao ver o desespero tomando conta da face da atendente que acompanhava meu “skatista” mirim tomando velocidade e partindo em sua direção. Os olhos dela se arregalavam à medida que ele abria uma avenida no corredor lustrado.

Os freios só foram acionados dois metros antes da entrada da loja. Aí, não deu! Seu cálculo de segurança falhou no momento exato em que a ponta do tênis-skate tocou o pé da estante metálica. A vibração do móvel durou uma eternidade suficiente para que todos voltássemos os olhos e torcêssemos vigorosamente para que o pior não acontecesse.

Não deu outra: a colorida panela, que não falava português, teve sua tampa de vidro temperado estilhaçada e o que se ouviu pela galeria foi um tilintar de ensurdecedor constrangimento.

Lembro-me bem do olhar da atendente, que evitava dizer o óbvio. Poupei-a dessa missão e saquei a carteira. Era muito dinheiro para uma jornalista, mas não tinha mais opção. Paguei a panela sem tampa em cinco doloridas prestações e pedi que a embrulhassem. Puxei o menino pelo braço e seguimos o passeio, agora com a grande sacola contendo a panela órfã de tampa.

Hoje, 20 anos depois, relembrando a fase dos filhos pequenos, eu e meu irmão, que me acompanhava no passeio, não deixamos de contar esta história em meio ao conforto do café da tarde. Saudades do tempo em que os meninos ainda iam com a gente ao shopping.

Quanto ao Rodrigo, virou um rapaz calmo e carinhoso. Quanto à panela, eu a uso até hoje, preferencialmente em minhas invenções na cozinha. Mesmo sem tampa, foi a melhor que tive durante um bom tempo. O problema foi que ela me viciou. Desenvolvi um dispendioso gosto por panelas importadas, que falam francês, inglês ou alemão. Mas o bom mesmo é que tudo foi transformado em afeto.

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