10 de dezembro de 2016
Não quero luxo, nem lixo
Varejo SA por Varejo SA

[sc name=”img-post-app” caminho=”http://revistavarejosa.com.br/wp-content/uploads/2016/12/4-entrei-praia.jpg” ]

Acontece. Você está saindo com alguém, na fase do conhecer e, voilá, surge uma viagem. Talvez, precipitada. E agora? Vamos juntos? Pois Mariane, uma garota esguia, de alvura quase translúcida, olhos oblíquos e mau humor adorável, me convidou para ir a um resort, desses chiques, nas praias mornas do Nordeste. Estamos juntos há três meses. “Detesto areia e você me parece, ao menos, uma companhia razoável”, desdenhou. Ela pagaria a hospedagem, por conta de seminário que participaria. Topei na hora.

Já no local, a recepção ficou por conta de simpáticos moços vestidos de bermudas e camisas de linho branco. Gostei do clima, tipo Ilha da Fantasia, com pedaços suculentos de melância e abacaxi. Faltou só o Tatu, o anão sorridente.

Porém, tenho hábito de carregar minhas próprias malas, por isso me incomodou a insistência do boy magia bronzeado em levar minhas coisas. Mariane adorou e ainda soltou uma nota de R$ 20 na mão do mancebo. Só pra me provocar, tenho certeza.

Ficamos pouco no quarto, bebericando água mineral a preços oceânicos, mas, de certa forma, felizes por poder gastar com aquilo. A verdadeira “liberdade” em uma viagem é poder atacar o frigobar sem se preocupar com o preço.

Eu mal começava a relaxar na cama king size e edredom gigante, quando Mariane sai do closet pronta para a praia, de biquíni de bolinhas, óculos escuros grandes e um não menos charmoso chapéu branco com fita roxa. “Mas achei que você não era muito fã de praia?”, perguntei surpreso.

“Sim, mas sou fã de mojito, guarda-sol e livros de espionagem”, disse, com um largo sorriso.

Descemos a suntuosa escadaria de madeira envernizada do resort. “Alguns carvalhos aqui enterrados”, murmurou ela, que é advogada ambientalista. “É madeira de demolição”, retrucou o gerente, que nos ouvia sem ser notado. Rá!

Seguimos.

Resort é aquele esquema: a praia é do hotel. Então, sentamos nas confortáveis cadeiras acolchoadas e pedimos nossos drinks para o irretocável e polido Gordon, um ruivo hipster fazendo intercâmbio e trabalhando como garçom. Incrível, eles têm até um garçom londrino, que puxou papo com Mariane. “Are you really brazilian? You look french”. (“Você é realmente brasileira? Parece francesa”).

Eu cortei, dizendo: “ela é brasileiríssima, de Montes Claros, Minas Gerais”. Toda aquela atenção me irritou um pouco. E, além do mais, onde estão as garçonetes simpáticas?

Mariane sacou de sua bolsa Louis Vuitton um cubano Cohiba. Nada pode ser mais lindo que uma mulher e um charuto. Nada. Mas não havia isqueiro para acender. Pedimos a Gordon, que voou para arrumar fogo.

O sol quente braseava nossa pele. Os sentidos amortecidos pelo álcool. Começou a bater aquela fome. Olhei um pouco além da área demarcada pelo resort e enxerguei uma cabaninha simpática, humilde, mas que prometia o melhor peixe da vida. Chamamos Gordon para assinar a conta dos drinks.

“Oh, vão almoçar? Temos aqui delícias de vários lugares do mundo. Peixe Belle Meuniere, Sashimi do chef Osaka San, de Miami, Costelinhas Barbecue à Outback! E já está incluído na diária. Por favor, venham”, disse ele, quase numa ordem.

Era minha chance de me vingar de Gordon, o metidão. “Não, não. Vamos comer um peixe frito na barraquinha do seu Fagner ali.” “Oh, não, mas… no sei, no sei se é seguro. E o almoço está incluído na pacote. Menos bebidas, claro”, tentou nos convencer, com bastante sotaque.

“É, tá incluído”, argumentou Mariane.

Nessa hora, meu espírito Indiana Jones falou mais alto. “Cansei desse almofadinha de sardas”, pensei, cá com meus botões.

Puxei, delicadamente, Mariane pelo braço, que se deixou levar docemente. Pisquei para Gordon. E rumamos para seu Fagner. Ali, em bancos toscos de madeira velha, nos refestelamos com traíras fritas e cerveja barata.

Ticket: R$ 54. E beijinho no ombro pro gringo