7 de fevereiro de 2019
Não importa o preço, o que vale é o brilho
Luciana Lima por Luciana Lima

Se há um evento no Brasil que nos faz lembrar o encantamento, brilho, formas e texturas que enchem os olhos, nossas mais secretas fantasias, para mim, essa festa é o Carnaval

Quem não retoma anseios de criança ao entrar em uma loja de apetrechos vestida e adereçada para os dias de Momo? Eu sempre me encantei com esse brilho barato e reluzente das plumas e paetês ao alcance da maioria dos bolsos, um brilho democrático, distante do excludente diamante.

Certa vez, em pleno fevereiro, a imersão no mundo da folia teve efeito educador em minha vida. Era Carnaval e, pela primeira vez, cobriria a festa em Salvador, com seus trios e toda a sua grandiosidade.

Sempre me incomodei com a pasteurização promovida pelos abadás. Todos vestidos da mesma forma, dentro de um cercado puxado por cordas em volta de um caminhão, mas era minha função e lá fui eu em minha missão de repórter.

Em um passeio breve pelo comércio da cidade, as lojas me chamaram atenção pela venda de artigos de Carnaval. Foi um alívio ver que tudo que sabia de Carnaval desde criança também existia naquele comércio, mas para onde iam esses foliões?

Embora entendesse a lógica comercial dos blocos, nunca me atraiu tal diversão pouco diversa e, na realidade, profundamente excludente. Mas Salvador acabou me surpreendendo e me mostrando outro lado, não televisionado, que movimenta a cidade.

A invenção do trio elétrico estava prestes a completar cem anos, desde que os amigos Dodô e Osmar, músicos de primeira qualidade, colocaram uma caixa de som em cima da famosa Fobica e seguiram tocando pelas ladeiras que levam à Cidade Alta.

Na época, resolvi contar essa história no veículo para o qual trabalhava, entrevistando nada menos que Armandinho Macedo, um dos herdeiros da dupla. Marquei com ele na porta do trio.

Ele me apareceu com uma peruca moicana colorida em arco-íris e informou: “Aqui, não vendemos abadás. Nosso Carnaval é com o abadado”. “Abadado?”, questionei.

“Sim, cada um vai com a roupa que quer, com a fantasia que melhor lhe cair, esse é o abadado. Também não temos corda, todo mundo é pipoca. Assim, não tem briga, nenhum grupo esmaga o outro, como ocorre nos trios com corda, nem a corda avança sobre a pipoca ou o contrário”, explicou ele.

Surpreendente foi observar a diversidade de cores e fantasias em meio à multidão que seguiu o caminhão. Estavam ali todas as fantasias que buscava, na infância, nas lojas, algumas em pedaços, adornando diferentes foliões. As máscaras, as plumas, o marinheiro, a colombina, o pierrô, a havaiana, a odalisca, o Homem-Aranha, a Mulher Maravilha, tudo a um preço bem menor que o cobrado pelos tradicionais abadás.

Lembrei-me, então, do pensamento de que Carnaval não é feito de joias e, sim, de brilho. Diferentemente do diamante, que se compra pelo brilho, mas se paga pela escassez, o que se quer dos dias de Momo é a folia e a beleza das fantasias. Foi inesquecível!

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