18ª edição

Na época em que todos querem chocolate, pessoas com intolerâncias alimentares impulsionam a criatividade e o mercado de ovos artesanais


Por Amanda Venício

 

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A Páscoa de 2018 promete aquecer as vendas. As principais fabricantes da indústria de chocolates, como Nestlé, Garoto, Mondelez e Cacau Show, já declararam esperar um aumento em relação a 2017, em matéria para o jornal Valor Econômico publicada em janeiro. De acordo com a empresa Kantar Worldpanel, especialista global em comportamento de consumo, a páscoa de 2017 teve um aumento de 10% em toneladas de chocolate. No entanto, não foram os ovos tradicionais que puxaram essa elevação, mas sim itens fora do portfólio regular, como caixas de bombons sortidos, tabletes e ovos artesanais.

E se a crise impulsionou novos empreendedores a investir em brigadeiros gourmets e chocolates artesanais, do lado do cliente, há um público para quem a Páscoa nem sempre evoca um cenário otimista. Trata-se daqueles que têm intolerâncias alimentares, alergias ou seguem dietas restritivas, que ainda não são contemplados pela indústria de chocolates como gostariam.

No caso daqueles que têm doença celíaca, um transtorno autoimune que gera intolerância ao glúten, proteína do trigo, a principal dificuldade está em evitar a contaminação cruzada, que ocorre quando produtos sem trigo entram em contato direto ou indireto com partículas do glúten. Isso pode acontecer, por exemplo, quando se usa o mesmo utensílio para manipular alimentos com e sem glúten.

“A dificuldade de encontrar ovos depende de onde o celíaco mora. Nas capitais, é possível encontrar em lojas especializadas os ovos sem glúten, sem leite e sem soja, mas, no interior, só comprando pela internet ou encomendando ovos artesanais”, relata Ester Benatti, vice-presidente da Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra) do Rio Grande do Sul.

A Lei nº 10.674/2003 obriga os fabricantes da indústria alimentícia a informar se os produtos contêm ou não glúten. No entanto, Ester alerta que os rótulos nem sempre são confiáveis: “Precisamos sempre checar as informações do rótulo com os fabricantes, pois ainda encontramos muita informação errada ou duvidosa. No ano passado, tivemos que denunciar um fabricante da Serra Gaúcha que colocou o selo, mas os ingredientes continham glúten”. Para se proteger, celíacos divulgam listas de ovos seguros nos grupos do Facebook e do WhatsApp.

Confiança
Nesse nicho, o boca a boca é decisivo para as vendas. “Quando a gente trabalha com alérgicos, as mamães têm mais confiança em alguém que produziu para outro alérgico e este não reagiu. Elas confiam mais em outras mães que já compraram”, diz Juliana Hinterland, criadora da marca Empório Panela da Ju. O boca a boca é a principal forma de divulgação da empresária, que produz ovos artesanais e administra uma loja on-line de produtos para celíacos e alérgicos em geral.

A empresa surgiu em 2017, após Juliana ser diagnosticada com intolerância à lactose. Como o marido já havia recebido o diagnóstico de doença celíaca, resolveu trocar o mestrado em Direito para se dedicar à alimentação da família, que incluía a filha, então recém-nascida. Ao notar a falta de alimentos sem glúten no mercado, teve a ideia de expandir o blog de receitas que mantinha e criar o e-commerce. A ideia de produzir ovos de Páscoa artesanais, no entanto, veio dos clientes: “Várias mamães me diziam: Ju, meu filho sonha em comer um ovo de colher, mas não encontro nada. O caso mais marcante foi de uma criança de cinco anos, do interior do Paraná, alérgica a leite e soja. O sonho dela era ganhar um ovo grandão, com embalagem de desenho animado. Quando recebeu o ovo, ela ficou tão feliz e emocionada que chorou, dizendo: Eu posso mesmo comer isso?”.

Personalizar

Os ovos feitos por Juliana são personalizados de acordo com as necessidades de cada cliente. As vendas são feitas por contato direto, via Facebook ou WhatsApp, pois Juliana precisa conversar com cada um para entender quais são suas restrições e gostos. As entregas são feitas no Rio Grande do Sul e no Paraná.

Com o aumento de opções de ovos industrializados para alérgicos, Juliana pensou que não haveria demanda para as versões artesanais em 2018, mas os clientes a surpreenderam. “As mesmas mães do ano passado me procuraram. Como muitas têm filhos alérgicos múltiplos, que reagem a corante, castanhas, sempre há algo que o mercado em grande escala não consegue atender”, explica.

Na hora de criar receitas, a criatividade impera: o brigadeiro pode ser feito com leite de castanhas, coco ou inhame e até o cacau pode ser substituído por alfarroba, caso o cliente tenha alergia ao ingrediente.

Criatividade

Inventividade na cozinha também é uma das características da Nutricakes, de Brasília, criada por Cibele Jacilha Mota, em 2014. No início, ela vendia bolos para pessoas com restrições alimentares, como diabéticos, celíacos e intolerantes à lactose. Um ano após a criação da marca, começou a fazer ovos de Páscoa, por demanda dos clientes: “Temos dois públicos: quem quer ovos de Páscoa tradicionais ou os que fazem dieta ou têm restrições alimentares”. Segundo Cibele, os produtos voltados para o segundo nicho vendem mais.

Além de diabéticos e intolerantes ao glúten e à lactose, a Nutricakes atende àqueles que seguem a dieta paleolítica, que exclui alimentos como laticínios, grãos, açúcar, legumes, óleos processados, álcool, sal e café. Adeptos do veganismo, movimento político pelos direitos dos animais que boicota produtos de origem animal, também são contemplados pelos produtos da marca.

A expectativa para este ano é bastante positiva. “Pretendemos dobrar a quantidade de vendas do ano passado, porque a quantidade de clientes duplicou”, comemora. Uma estratégia de sucesso foi a venda de uma caixa com seis miniovos, um de cada sabor criado pela Nutricakes. “Essas caixinhas venderam bastante. Muitos clientes compraram para dar de lembrancinha”.

Para evitar a contaminação cruzada na produção dos ovos sem glúten, Cibele adota uma série de procedimentos. “Tenho um forno para produtos com glúten e outro, sem. Os produtos livres de glúten são sempre os primeiros a ser feitos depois da higienização, com utensílios separados, como batedeiras e espátulas”.

Além de celíacos e intolerantes à lactose, o café brasiliense Komboleria atende a veganos, alérgicos a ovos e pessoas que seguem a dieta low carb, de baixo carboidrato. Para a Páscoa de 2018, as expectativas são altas. “Houve um aumento de vendas no começo do ano: janeiro foi o melhor mês desde que assumi a Komboleria, em julho de 2017. E os clientes já estão perguntando sobre os ovos”, diz Rodrigo Ferreira, proprietário do estabelecimento. Ele atribui o aumento das vendas ao fato de as pessoas estarem mais atentas à própria alimentação e à saúde.

A esperança de Ester, vice-presidente da Acelbra-RS, é que as grandes indústrias comecem a prestar mais atenção aos celíacos e aos que sofrem de outras intolerâncias alimentares e alergias. “Pais de filhos alérgicos e celíacos fazem qualquer negócio para tornar a vida dos filhos normal. Estamos falando de pequenas coisas diárias que fazem nossos filhos se sentirem iguais aos colegas. Queremos comprar ovos nas Lojas Americanas, no Pão de Açúcar ou no mercado do Seu Manoel, na esquina de casa!”.

5 dicas para venda de ovos artesanais

Michelle Marine Morais Ibarra, docente dos cursos livres e técnicos da área de gastronomia do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo

1) Organização
É necessário realizar um cardápio com todos os produtos que serão comercializados. Em seguida, o comerciante deve procurar lojas de confeitaria ou fornecedores para realizar uma pesquisa de preços e qualidade de chocolates, embalagens para transporte e insumos necessários para a produção dos ovos de Páscoa. Também precisa realizar uma tabela de preços dos ovos de Páscoa para saber o custo de venda e seu lucro. Por último, deve realizar uma pesquisa com seus clientes, para saber a demanda do seu produto. Com o resultado em mãos, estará preparado para a época da Páscoa.

2) Apresentação

A apresentação dos ovos de Páscoa é baseada em criatividade e na criação de novos tipos de produto, como blends de chocolate ou uso de corantes. A tendência de mercado dos ovos de Páscoa hoje é os ovos de colher: charmosos, práticos e de diversos recheios, eles atraem os olhos dos clientes.

3) Comunicação

Hoje, a comunicação na área da alimentação é consolidada nas redes sociais, páginas com fotos e vídeos diários. Usar imagens coloridas atrai o público infantil. A degustação gratuita também é uma alternativa. Quando o cliente prova e constata que o produto é de qualidade, a compra é certa.

4) Qualidade

O produtor não deve trabalhar com chocolate fracionado, com gordura hidrogenada. O cliente que procura um doce específico que só é comercializado em determinadas épocas do ano quer um produto de qualidade.

5) Cuidados

É necessário o produtor tomar determinados cuidados ao comercializar produções culinárias. Os principais são etiquetar corretamente o produto com os ingredientes utilizados e informar se houve contato com outros insumos no mesmo recipiente de preparo, com os dizeres “Pode conter traços de oleaginosas”, por exemplo.

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