2 de março de 2020
O melhor do brasil são as brasileiras
por Hilaine Yaccoub e Fábio Amaral

Conheça a história de Renata, Elizandra e Rúbia, três mulheres da periferia de São Paulo que vêm sacudindo o mercado profissional do país

Mulheres empreendedoras, reconhecidas profissionalmente e com uma trajetória de superação que já virou livro numa coleção chamada Biografias Colaborativas. Mesmo com tantas semelhanças, o que une as histórias de Renata Alves, Elizandra Cerqueira e Rúbia Mara é o fato de morarem na periferia da Grande São Paulo. Mas isso também já é passado. A trinca já está muito além do velho discurso de que as comunidades também são lugares de grandes talentos e atualmente promovem uma verdadeira revolução que vem mexendo com o cenário econômico e cultural do país.

“A história já nos mostrou que foi em momentos de crise que a periferia conseguiu atrair os olhares para o que acontece lá dentro. Desta vez, a crise econômica aconteceu justamente num momento em que as classes C, D e E vinham de um processo de empoderamento cultural e atraindo olhares do empresariado para o seu potencial de consumo. O resultado foi uma explosão de soluções e entendimentos do sistema que estão abalando as estruturas de classe e o mercado de trabalho. Viva a crise”, provoca Rúbia.

Num momento em que a sociedade discute questões políticas e se preocupa com a polarização de ideologias, as grandes marcas precisam continuar vendendo seus produtos para sobreviver. O jeito foi correr atrás do consumidor; pesquisas indicam que 75% da população faz parte das classes C, D e E e que 60% da sociedade vive em áreas periféricas.

“Enquanto o mercado se preocupava em criar novas nomenclaturas, como economia solidária, empreendedorismo, start-ups e unicórnios, nós colocamos a mão na massa. Quem mora em comunidades ou regiões afastadas dos grandes centros já está acostumado a ter que criar o seu próprio trabalho. Com 12 milhões de desempregados no país, o próprio mercado precisou enxergar essas pessoas como uma possível solução para a crise”, diz Renata.

Com uma história digna de roteiro de cinema, a produtora ganhou projeção nacional em 2010, quando virou protagonista de uma campanha do governo federal. Aproveitou a oportunidade e fundou a Quebrada Produções, uma start-up com sede no centro de Paraisópolis, especializada em encontrar locais para gravação e equipe de figurantes dentro de comunidades e regiões periféricas. A produção audiovisual do “cinema-verdade”, como o premiadíssimo Cidade de Deus, abriu portas e ela aproveitou.

“Com a explosão do ‘favela movie’ e das novelas que precisavam de locações dentro das comunidades, nossa produtora surfou nessa crise e eu pude conhecer e entender o valor da periferia dentro do mercado audiovisual”, conta. Recentemente, foi convidada a relatar sua história a convite da Organização das Nações Unidas (ONU).

Negócios sociais substituem a prática assistencialista

A prática assistencialista vem sendo substituída pelos negócios de impacto. Anunciantes sentiram a necessidade de se comunicar com as classes C, D e E; consequentemente, surgiram inúmeros negócios dedicados a fomentar as marcas de informações e mão de obra vinda da periferia.

“Já aprendemos como funciona o sistema desde quando ele era meramente assistencialista e agora estamos num momento de separar o que é negócio social de exploração social. Não há problema algum em lucrar em cima desse público, aliás, essa é a solução. O que não pode é haver lucro demais para um lado da balança, senão a conta não fecha”, explica Rúbia.

Com mãe professora de matemática e pai advogado, ambos funcionários públicos, a jovem de 30 anos nasceu em Cidade Tiradentes, extremo Leste de São Paulo, e teve uma estrutura familiar que lhe permitiu seguir todo o roteiro clássico da educação formal, até o nível superior. Formada em Jornalismo, se destacou como assessora de imprensa de grandes nomes do funk ostentação de São Paulo. O gênero fez a cabeça da juventude e extrapolou os limites da periferia em 2009. Desde então, é tratado como um negócio e sua estrutura inclui empresários, agentes e relações públicas. Mas engana-se quem imagina que foi a batida ou estilo ditado pelo gênero que chamou atenção de Rúbia. Cria do samba e da MPB, ela enxergou ali uma maneira de se destacar profissionalmente. Havia demanda e ela soube usar seus recursos para profissionalizar um movimento cultural historicamente marginalizado.

“Alguns amigos brincam que sou uma ‘patricinha’ da periferia. Seguir uma linha intelectual e se envolver profissionalmente com manifestações populares é uma forma de manter o mercado de trabalho alinhado com o que vem das ruas. A cultura da rua muda muito rápido, assim como seus hábitos e preferências. É dessa forma que exerço a liderança comunitária”, conta.

Recentemente, Rúbia inaugurou a Colmeia Tiradentes, o primeiro coworking da Zona Leste de São Paulo e que segue as mesmas diretrizes dos hubs e colabs em tendência no mundo. Ganhou um edital público para realizar uma série de eventos de economia solidária; o primeiro acontece em março, chamado Verão Interativo. Além disso, é dona de um casting poderoso que fomenta editoriais de moda e eventos “hypados” – mais modernos e contemporâneos – de São Paulo.  

Potencial de consumo das periferias é de R$ 168 bilhões

De acordo com pesquisa divulgada pelo Outdoor Social, o potencial de consumo das mais de seis mil comunidades brasileiras é de R$ 168 bilhões. Desse montante, quase R$ 30 bilhões são destinados ao setor de alimentos. Fundadora do projeto Mãos de Maria, ao lado de Juliana da Costa Gomes, Elizandra sabe muito bem a importância do setor para a economia. Seu projeto reúne mulheres vítimas de violência doméstica e foi premiado na França. 

“Eu fui vítima de violência doméstica, mas, como sempre fui independente financeiramente, consegui sair desse cenário e vi no empreendedorismo uma ferramenta para libertar tantas outras mulheres que não conseguem sair dessa situação”. Seu engajamento na causa das mulheres é fruto de uma liderança comunitária iniciada ainda na adolescência, quando participava do grêmio estudantil de seu colégio. Dali para a atuação na associação de moradores de Paraisópolis foi um pulo, até em 2006 fundar a Associação das Mulheres de Paraisópolis. “O número de mulheres na periferia é muito grande. Juntar essa vontade de participação com a capacitação foi o meu diferencial para conseguir desdobrar o projeto Mãos de Maria em outras plataformas”, diz.

Recentemente, ela e a sócia abriram um bistrô numa laje em Paraisópolis, que se tornou ponto turístico e roteiro obrigatório para executivos que trabalham com negócios e precisam se aproximar dos consumidores, assim como turistas curiosos com os hábitos culturais, além daqueles que querem apenas curtir uma boa música e comida típica brasileira da melhor qualidade.

“Recebemos empresários, publicitários, celebridades, turistas estrangeiros, com toda a simpatia que esperam de nós. Nossa laje é cenário para gravação de inúmeros programas e, por trás de tudo, sabemos muito bem o que podemos aproveitar com a receptividade de cada ação dessa. Somos mulheres de negócio”, diverte-se Elizandra. Atualmente, ela se dedica a desdobrar o projeto em aplicativos e participa de inúmeros eventos capacitando outras lideranças femininas.

O poder das mulheres periféricas

São muitos os fatores que contribuem para que mulheres partam para o empreendedorismo: a flexibilidade de horários, a necessidade de ter mais de uma fonte de renda, a falta de rede de apoio familiar, a ausência de um companheiro para dividir tarefas, entre outros. Se, para tantas mulheres, esses são desafios vigentes, para as mulheres que moram nas periferias, elas ainda têm outra questão: morar e viver longe de centros urbanos.

A mulher periférica percebeu que, fora dos grandes centros urbanos, há espaço para o crescimento de uma economia local, mais próxima de seus consumidores, com uma força de crescimento assustadora e com energia para crescer e se perpetuar. Estamos na era do mercado de nicho; sendo assim, negócios locais feitos por moradores, adaptados para suas necessidades, valores e gostos, ganham uma potência inestimável.

Se a crise expulsou as trabalhadoras de carteira assinada dos centros empresariais, elas ergueram as mangas, aprenderam a fazer bolo no pote (reciclável) e saíram às ruas vendendo sua produção. Hoje, essa mesma empreendedora possui conta no iFood, conta com motoboys que entregam suas encomendas e já estuda a possibilidade de criar uma linha de produtos para quem possui restrições alimentares. Na atual conjuntura brasileira, em que vivemos uma crise de instituições, são as mulheres periféricas que estão fazendo a roda da economia girar. Precisamos aprender e nos inspirar com essas lideranças, mulheres brasileiras que não desistiram e estão em busca da mudança, de dentro de casa para sua rua. Do local para o global, o lugar dessas mulheres é o mundo.

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