17ª edição

As farmácias brasileiras não parecem ter sentido os efeitos da crise e, atualmente, já são cerca de 70 mil por todo o país. Saiba o que contribuiu para resultados tão positivos nos últimos anos

Por Letícia Bezerra

A crise econômica que afetou negativamente a maioria dos varejistas nos últimos anos não parece ter afetado as grandes redes de farmácias. O número de estabelecimentos desse segmento só cresce – no Brasil, uma farmácia é inaugurada por dia! Segundo o Guia 2017 da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), o mercado farmacêutico brasileiro ocupa a oitava posição no ranking mundial, com previsão de alcançar o quinto lugar até 2021.

Hoje, existem cerca de 70 mil farmácias espalhadas pelo Brasil, as quais foram responsáveis pela comercialização de 1,8 bilhão de medicamentos em 2017. O resultado foi a movimentação de R$ 85,35 bilhões, o que representa um crescimento de 13,10% em relação a 2016. Os números em alta favorecem, principalmente, o crescimento dos grandes grupos do segmento: em 2016, apenas as grandes redes de farmácias foram responsáveis por movimentar, sozinhas, R$ 35,94 bilhões em vendas.

Um bom exemplo de sucesso é do grupo RaiaDrogasil (RD), maior rede de drogarias do Brasil e da América Latina, que lidera o ranking da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) em número de lojas e faturamento. Com 1,6 mil lojas espalhadas por 20 estados brasileiros, o grupo faturou US$ 3,4 bilhões em 2017. Os resultados positivos renderam à rede o título de Empresa do Ano na Melhores e Maiores da revista Exame.

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“O ponto mais importante na trajetória de crescimento da nossa empresa tem sido o foco em entender as necessidades dos nossos clientes. Manter o relacionamento e fazer parte da vida das pessoas é fundamental. Estamos sempre observando as transformações sociais que ocorrem no país para entender as mudanças de visão do consumidor”, diz Eugênio De Zagottis, vice-presidente de Planejamento e RI da RD.

O segredo do sucesso

Os números gerados pelo mercado farmacêutico com certeza não refletem o momento atual do varejo brasileiro: enquanto a maioria dos varejistas está cautelosa em relação à expansão e adoção de novas estratégias, os donos de farmácias não pensam em pisar no freio. É importante ressaltar que esse mercado não é simplesmente imune à crise e os bons resultados são consequência de uma série de fatores, que, somados, ajudaram a alavancar as vendas.

Um deles foi o envelhecimento da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os brasileiros com mais de 60 anos representavam 10% da população em 2010, atualmente são 14% e, em 2050, deverão chegar a 29%; com isso, a demanda por produtos e serviços de saúde só deve crescer. Ainda, de acordo com o Guia 2017 da Interfarma, cada brasileiro gasta, em média, US$ 110 por ano com remédios e produtos de saúde.

Outro fator foi a venda de não medicamentos. Nos últimos anos, as vendas de produtos de conveniência, cosméticos e higiene pessoal representaram grande parte do faturamento total das drogarias. “As grandes redes vêm se tornando verdadeiras ‘lojas de saúde e beleza’, com cada vez mais produtos para o bem-estar e sem que os medicamentos tradicionais percam espaço, em grande parte pela sua capilaridade e poder de barganha com a indústria. Nesse local, o consumidor encontra um mix de produtos em um único lugar. Há mais conforto e conveniência”, afirma Sérgio Mena Barreto, porta-voz da Abrafarma.

 

Aproximar-se do consumidor parece ter sido a chave para o sucesso das grandes redes de farmácias, como aponta Barreto: “Devem-se considerar as estratégias para reter os clientes, como programas de fidelidade, e-commerce e sistemas de tecnologia da informação para mapear hábitos de consumo, com o objetivo de entregar produtos personalizados, coerentes e customizados ao perfil de compra e preferência do cliente”.

 

A tecnologia a favor das farmácias

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Com tantas opções, ficou quase impossível pesquisar em qual farmácia determinado produto está mais em conta sem que, para isso, se perdesse muito tempo ligando ou indo de uma em uma. Foi pensando em resolver esse problema que um grupo de amigos de Brasília desenvolveu um aplicativo gratuito que compara os preços entre as farmácias cadastradas, encontrando aquela mais próxima ao usuário e com os menores valores.

O app Qual Farmácia, em funcionamento desde junho de 2016, é simples e intuitivo. O usuário pesquisa o item que deseja – desde medicamentos a produtos de higiene e beleza – e o aplicativo indica uma lista de farmácias que possuem o produto em estoque, informando preços e o menor tempo de entrega, caso o cliente deseje receber em casa.

A ideia do aplicativo surgiu quando Lucas Bruno, desenvolvedor e cofundador da start-up, saiu de uma consulta médica sentindo muita dor e ainda precisava comprar o medicamento para o tratamento. Sem disposição para ir a várias farmácias e pesquisar pelo menor preço, ele só desejava chegar em casa e que seu medicamento já estivesse lá.

Sérgio Bergmann, também desenvolvedor e cofundador da empresa, ressalta a importância de entender a mudança de comportamento dos consumidores desse segmento: “Nos dias de hoje, as pessoas estão buscando praticidade, comodidade e economia. As tarefas simples do dia a dia podem se tornar desgastantes e, às vezes, custar bem caro por um pouco mais de praticidade. Pensando nessas dificuldades, o Qual Farmácia nasceu para oferecer um serviço que torna a compra nas farmácias mais simples”.

Ele aponta, ainda, os benefícios que o uso dessa tecnologia pode trazer para os estabelecimentos: “Se essa experiência for positiva para o consumidor, a tendência será que ele compre cada vez mais pelo app e estimule os estabelecimentos farmacêuticos a continuar aumentando suas vendas, mesmo em meio à crise”.

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