19ª edição

Por Luciana Lima

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Estratégias de vendas podem funcionar por caminhos bastante diversos, que, muitas vezes, nem imaginamos ou percebemos. Uma situação no mínimo esdrúxula ocorreu comigo em uma loja de roupas no estilo surfwear. A intenção era comprar uma camisa, com prancha e onda, que me desse um ar mais descontraído que aquela cotidiana roupa de trabalho.

Na vitrine, o modelo ideal, só que dois números a menos. Coragem! Entrei na loja e o prestativo atendente, que já me observava do lado de fora, se aproximou:

– Bom dia! Pois não?
– Bom dia! Você poderia, por favor, ver para mim uma camisa dessas, só que de um tamanho maior? Tamanho G, acredito.
– Claro, só este modelo mesmo?
– Sim. Enquanto isso, vou dar uma olhada no resto da loja.

Ele se foi e eu mergulhei no colorido das araras em busca de outra inspiração para minha pronta inserção no mundo descontraído do surf. Nem percebi os longos minutos em que o vendedor se escafedeu no labirinto do estoque.

Ele voltou de mãos vazias, o que me fez concluir de imediato que, do meu tamanho, nada tinha ali. Indaguei:

– E aí? Tem meu número?
– Tem, mas acabou.

A resposta me fez passar alguns segundos inerte, tentando entender a treta retórica. Acabei capturada por ela e me joguei, então:

– Se tem, quero uma.
– Mas eu disse que acabou.
– Então, não tem aqui nesta loja. É isso que você quer me dizer?
– Não, não é isso. Tem, sim, mas acabou.
– Ah, você quer dizer que existe, mas não tem aqui?
– Não, tem sim, mas acabou.

A conversa, que já se alongava com o atendente, chamou a atenção dos demais vendedores. Eu já não sabia se surfava com a primeira parte da resposta ou com a segunda:

– Se tem, quero uma, na cor verde.
– Já disse que acabou.
– Então, tudo bem, fica para uma próxima oportunidade.
– Mas tem – insistiu ele.

E assim permanecemos por mais alguns minutos, estatelados no meio da loja. A pendenga nos unia, apesar da intransigência de ambos.

Olhando pelo retrovisor, se era estratégia de venda ou não, pouco importava em meio à discussão. O interessante é que ela funcionou. Enquanto nossas retóricas se digladiavam, meus olhares já buscavam outras peças e alguns presentinhos para os filhos.

A solução para minha incursão no surfwear passou a ser um vestidinho bem vaporoso, estampado com flores, que virou meu preferido por um bom tempo. Este tinha, mas não tinha acabado.

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