7 de janeiro de 2019
Enganação não é estratégia de venda nem no Brasil, nem no Mar Morto
Luciana Lima por Luciana Lima

Chantagem não pode ser instrumento de venda

É certo que as vendas estão difíceis, que a situação econômica pela qual passa o país não é das mais favoráveis, mas algumas coisas são inadmissíveis no tratamento do cliente, em qualquer tipo de comércio que se tenha.

Insistência, chantagem, vitimização e enganação não podem ser consideradas técnicas de venda em hipótese alguma.

Infelizmente, algumas marcas de artigos variados apostam nesse quarteto de ações. Fico a me perguntar: como sobrevivem? Quem, algum dia, caiu na arapuca, hoje corre léguas da abordagem desesperada dos vendedores.

Caí na armadilha em um dia no qual o tempo era comprido e a espera ia ser longa no shopping até que o trânsito melhorasse. Nada melhor que uma visitinha às lojas para atualizar o olhar e já pensar em algumas comprinhas de férias.

Peguei a escada rolante para uma loja de departamentos e, ao desembarcar no segundo piso, uma moça me abordou, de pé, em um quiosque estrategicamente localizado na passagem de uma das galerias:

– Hei, pode chegar aqui um pouquinho?

Hesitei, mas preferi não destilar meu mau humor contra aquela pessoa que estava ali tentando defender seu ganha-pão.

– Vem aqui que eu vou te dar um brinde.
– Mas eu não quero brinde. Brinde de quê? – questionei.
– Posso fazer uma demonstração em seu rosto. Estes são cosméticos do Mar Morto. São revolucionários. Rejuvenescem da noite para o dia.

Depois de um dia exaustivo, tendo ainda que esperar pelo menos uma hora no shopping, olhei a confortável cadeira localizada no meio do stand de vendas e aceitei.

– Vou começar com somente uma parte do rosto, para que você possa ver o resultado após a aplicação do produto – disse a demonstradora, em tom amigável.

A cada creminho que passava, ela interrompia meu cochilo com uma série de frases feitas sobre o Mar Morto:

– Os cosméticos do Mar Morto são muito bons devido ao alto teor de sal em suas águas, o que faz com que a vida seja impossível de se desenvolver. Somente raras espécies de algas sobrevivem em condições tão adversas e emprestam à nossa pele todo o vigor de que ela necessita – seguia a vendedora em sua cantilena.

Em certo momento, eu perguntei:

– Onde é que fica esse Mar Morto?
– Olha, onde fica eu não sei. Só sei que lá é morto e quem sobrevive pode ficar feliz da vida, porque estes cremes são uma beleza – disse a vendedora, já pegando o espelho para me mostrar as maravilhas.

De um lado, rosto macio e hidratado. Do outro, os restos da maquiagem matutina ainda presente e um pouco escorrida.

– Muito bom, mas agora vamos ao outro lado que já está dando a minha hora.

A vendedora relutou e já veio com três potinhos, cada um deles no valor de R$ 700,00.

– O outro lado eu posso aplicar se você levar o tratamento.
– Como assim? – indaguei.
– Sim, a gente só está autorizado a fazer um lado; se o cliente levar, a gente pode aplicar na outra parte do rosto. Este aqui é o primeiro passo, este, o segundo e ainda tem o terceiro, com uma grande concentração de substâncias do Mar Morto.
– Então, esquece, não vou levar nada.

Aí veio a parte da mendicância:

– Mas sua pele ficou tão maravilhosa, como não levará?

Respondi:

– Não levarei porque somente uma pequena parte de mim quer os cosméticos do Mar Morto. A parte que recebeu o creminho. A outra morre de ódio dos cosméticos do Mar Morto. Para não ter conflito, prefiro não arriscar.

Esta não foi a primeira, nem a última vez, que me abordaram, inclusive no mesmo quiosque. Agora, quando passo em frente e tentam me fisgar, digo logo:

– Eu paro, mas só se for aplicar nos dois lados do rosto. Serve?

Desistem na hora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *