2 de novembro de 2018
Desacelere! Pressa não é sinônimo de eficiência
Luciana Lima por Luciana Lima

Muitas vezes, a pressão pela rapidez pode comprometer uma venda e até a imagem de uma loja. 

Vender não é uma tarefa fácil, é verdade. Requer muita habilidade, observação e sensibilidade para não ultrapassar os limites da liberdade do cliente, nem deixá-lo à espera de alguma atenção. Lojas investem em treinamento, no entanto, o feeling do vendedor é o que acaba fazendo a diferença em um atendimento.

Experiências negativas não faltam. Quem nunca sentiu a aflição de entrar em uma loja e ser envolvido em uma pressão pela rapidez na escolha que atire a primeira pedra. Em datas comemorativas então, quando as lojas estão sempre cheias e os atendentes loucos pelas comissões, é comum o apelo para que provadores sejam desocupados o mais depressa possível.

Muitas vezes, as lojas investem na ambientação, selecionam trilhas sonoras agradáveis, estimulantes, mas pecam no principal, a relação com o cliente. Às vezes me vem a seguinte sensação: Será que sou uma pessoa mole, indecisa? Ou será que me recuso mesmo a entrar na histeria?

O fato é, não aceito mais experiências traumáticas de compra, já que colecionei más escolhas exatamente pelo ritmo imposto. Já comprei bases cosméticas fora da cor da minha pele, blusas, calças e vestidos que só foram usadas dentro do provador, sutiens apertados, sapatos que me causaram dores, enfim, uma série de “contratempos” que poderiam ter sido evitados se estivéssemos “a favor do tempo, e não contra ele. Ou seja, a palavra de ordem por mim adotada é “desacelere”! 

Nada de consumo apressado. Este costume, nós, brasileiros, importamos dos norte-americanos com a onda “fast”, como se fosse sinônimo de eficiência. “The time is money”, nada mais fora de moda!

Os europeus não embarcaram nessa e quando visitamos o velho mundo, aprendemos a esperar, sem nenhum problema, o garçom que limpa uma mesa, antes de você se sentar, voltar com o cardápio, fazer primeiro o pedido das bebidas e aperitivos, servi-los, depois voltar novamente com as próximas fases de uma refeição. Mais que isso, achamos até charmoso o tempo que se perde (ou se ganha) em uma experiência dessas.

Nada parecido com o vendedor de massas nas praças de alimentação espalhadas pelo Brasil que a cada ingrediente selecionado dá uma batidinha na borda dos recipientes metálicos e repete: “Próximo”! Por que aceitamos então a pressão em nosso país?

Dias desses, ao levar algumas roupas para um provador em uma loja, tive que conviver com a vendedora que, em menos de dois minutos de conversa, já me tratava como sua mais nova amiga de infância. Ou seja, amizade na velocidade da luz. 

Antes mesmo de vestir a calça que pretendia comprar, ela já gritava do lado de fora do provador. “E aí querida, qual é o seu nome mesmo? Luciana? A calça serviu?” Fiquei em silêncio proposital para que a constrangida ali não fosse só eu. No entanto, não foi suficiente. “Você já vestiu a calça azul?” A situação só foi piorando diante da minha recusa em responder. 

“É mesmo a 42?” Aí, meu silêncio passou a ser sepulcral, ensurdecedor, quase constrangedor. Acho que desconfiada de que sua insistência não estava agradando, passou a um questionamento meio “justificador”: “É que eu estou perguntando porque se ficou apertada ou larga, eu posso ver no estoque se tem o seu número”, insistiu.

Questionei-me: e se eu não quisesse que ninguém soubesse meu nome? E se não serviu e eu quisesse que ninguém da loja soubesse que não havia entrado? E seu eu quisesse que aquela experiência fosse só minha, mesmo a roupa tendo cabido? 

Na verdade, o que queria é só um momento de paz para analisar um produto que pretendia adquirir. Como eu, acredito que muitos clientes desejariam o mesmo. Enfim, decidi quebrar o gelo da situação e simplesmente saí do provador dizendo que não levaria a peça.

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