4 de janeiro de 2017
Conduzindo Dona Zilda
Varejo SA por Varejo SA

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Minha mãe, dona Zilda, acredita que “carro é investimento”. Na realidade, para ela, é quase um filho. Os “meninos”, aliás, já cresceram, então não têm mais aquela importância toda ,né? A máquina, essa sim, carece de cuidados. E deve ser trocada a cada dois anos “para não perder o valor”.

Uma senhora aristocrática e divorciada, que gosta de gastar com essas coisas: carros. A indústria e o comércio, claro, agradecem. Para essa tarefa, rumamos para sua concessionária favorita, a fim do mais novo modelo de um sedan japonês.

Entramos, mãe e filho, de braços dados. Apoiando seus 70 anos no meu tronco, me levou até uma mocinha novata, de cabelo pintado de ruivo e aparelho nos dentes, que logo abriu um sorriso: “Olá, como vai a senhora?”.

“Ah, nessa idade, menina… já vivi dias melhores”, responde Dona Zilda, com seu conhecido sarcasmo. “Mas se você trouxer o Almeida aqui, melhora”, emenda. Todos rimos

Almeida é o gerente. Minha mãe o acha bonitão. Diz que lembra Don Drapper, da série Mad Men. Claro que é um exagero. Para mim, lembra no máximo um José Mayer mesmo.

Almeida não vem até nós. Andamos pelo salão de mármore barato, pé direito alto, cheio de vendedores de finas gravatas e camisas brancas.

Por que não mudam esse uniforme? Aliás, esse layout de concessionária, eu diria, está bem ultrapassado, com suas máquinas de café solúvel, pufes de couro sintético e tevês ligadas em salinhas envidraçadas. Não, gente, as coisas mudaram. Por que não um lounge, com música ambiente legal, roupas despojadas e menos gel no cabelo dos vendedores?

Os carros estão expostos, com garotas a emoldurá-los. Em cores austeras, preto, cinza, branco. Hoje em dia há menos variedade de cores que há 20 anos. Minha mãe teve um lindo Opala, verde claro metálico, com estofamento marrom. Um desses, hoje em dia, faria sucesso apenas por ser diferente!

Almeida abre sua salinha, enquanto termina uma ligação no celular e aponta para duas poltronas. Sentamos. “Dooona Zilda, quanto tempo!”

“Oi Almeida, teu cabelo tá mais branco, né?”

“É, estou pensando em pintar”, responde o gerente, em meio a gargalhadas.

“Faz isso não, o grisalho tá na moda.”

Ele oferece um aguado Nescafé. Bebo, fazendo careta. “Já inventaram máquina de expresso, sabia?”, tiro um sarro.

“Sim, sim, vou comprar uma dessas maquininhas para a loja”, ele diz, se voltando pra minha mãe. “Está na hora de trocar o bebê, né?”

“Depende, esse novo modelo mudou alguma coisa? Quero fazer um testdrive.”

“Aaahhh, a fila para o testdrive está meio lotada, dona Zilda. Não sei se vamos conseguir hoje. É preciso agendar.”

“Ah, tudo bem, acho, então, que vou trocar de marca de carro japonês”, diz a senhora, num sorriso maroto, olhando para o outro lado da rua.

“Opa, claro que não, dona Zilda! Para a senhora a gente dá um jeito”, rebate, num sorriso amarelo.

Entramos no mais novo modelo do sedan quatro portas lindão. Pelo caminho, iam surgindo os comentários da minha mãe: “Branco suja muito’, Prefiro os bancos de couro preto”, “O vidro precisa ser levemente azulado para eu enxergar direito.”

Não existe mais ignição, é só apertar um botãozinho e o carro liga. Não precisa meter a chave na porta, basta se aproximar e apertar outro botão para abrir.  Confesso que adorei!

Almeida vem junto, o que normalmente não faz por ser gerente. Mas sabe que, com ele, a venda é quase certa.

Mami dá uma leve arrancada ao sairmos da rampa do prédio. “Opaaa, vamos com calma, dona Zilda!” “Estou testando a máquina”, diz ela. O carro roda macio, não tem como. “Poderiam inventar um ajuste de banco mais simples”, avalia Zilda. “Agora são quatro botões diferentes, fica difícil achar a posição ideal”, critica, enquanto aperta comandos e ultrapassa um caminhão ao mesmo tempo.

“Olha para frente, Zildinha”, dispara Almeida, num arroubo de sinceridade. “Já tirei muito racha nos meus 20 anos, em pista de terra na fazenda do meu pai”, diz a senhora.

Mesmo mantendo a compostura, Almeida tem aquela cara de “por favor, Deus, que isso acabe logo”. Eu me encosto no confortável banco traseiro e peço para ligar o som. Começamos a escutar a voz de Ana Carolina. “Ah, pode tirar”.

Tem tevê também, mas é preciso desbloquear para assitir em movimento. “Melhor não”, digo. “Melhor sim”, diz dona Zilda, que faz uma curva fechada, para testar a estabilidade do veículo.

O testdrive não passa de uma volta no quarteirão. Está quase acabando, para alegria minha e do Almeida. Mas, espere! “Uma carrocinha de churros”, grita dona Zilda, que mete o pé no freio e toma uma buzinada de um golzinho que vinha na pressa atrás. Ela joga para o acostamento e pede três. “É para tirar o gosto daquele café ruim da boca”. “Não pode parar aqui”, diz Almeida, pronto a surtar.

Pegamos a guloseima gordurosa e voltamos para a concessionária. Deixamos o carro com o manobrista. “Vou comprar! “Não resisto ao cheiro de carro novo”, diz dona Zilda.

Almeida se empolga, abre um sorrisão e levanta a mão, em um high five! “É isso aí!”

Admiro Almeida. Atendimento é tudo e o cara não arrega para fazer a venda.

Ticket: R$ 85 mil e uns quebrados.