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A volta do consumo e alguns cuidados

Por Marcela Kawauti Economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil)

Duzentos reais divididos em cinco parcelas: os R$ 40 por mês não pareceram muita coisa. Mil reais divididos em dez vezes, sem juros: as condições facilitadas tornaram a proposta irrecusável. Para aproveitar um desconto de 30%, mais R$ 300 divididos em três vezes. Do mês anterior, vinha uma prestação de R$ 150 – a primeira parcela de um total de cinco. Pelos próximos três meses, ao menos, R$ 390 estariam comprometidos com parcelas.

Mas as contas não paravam aí. Havia também os gastos correntes – água, luz, internet, transporte, supermercado – e os não parcelados no cartão. Com uma renda próxima da média nacional, algum compromisso ficaria para trás, ou melhor, para frente. No mês seguinte, tudo se repetiria. Além dos novos vencimentos, os atrasos seriam cobrados com acréscimo de juros e, quem sabe, outra oportunidade “imperdível” de compra poderia aumentar a soma do endividamento.

Primeiro compra, depois vê como paga. É assim que muitos consumidores acabam no vermelho. Segundo estimativa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), o número de negativados no país já passa de 60 milhões. Engana-se quem pensa que esse problema diz respeito só aos endividados. O mau estado da saúde financeira das famílias acaba por afetar o varejo e a própria economia, ao impulsionar a inadimplência e, assim, retirar do mercado um amplo contingente de consumidores.

O autocontrole, claro, é o melhor antídoto contra a inadimplência, mas, para que exista, é preciso disseminar as boas práticas de educação financeira. Isso vai além das planilhas de gastos. Envolve também munir os consumidores com informações, de modo que possam tomar decisões melhores. Qual é a diferença, por exemplo, entre um crédito consignado e uma linha de crédito não consignado? Qual é a taxa de juros cobrada em caso de atraso da fatura de cartão de crédito? Poucos saberiam responder.

Neste início de recuperação econômica, um dos principais vetores do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi o consumo das famílias. Na esteira do consumo, as concessões de crédito também começam a avançar, segundo dados do Banco Central. Isso é bom. E será tanto melhor se a retomada não se traduzir, mais à frente, em aperto e inadimplência. O consumidor que se planeja pode até gastar menos hoje, mas irá consumir por mais tempo e com menor risco de inadimplir. Quem não gosta de vender a um bom pagador?

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