8 de abril de 2020
Chá e infusões conquistam os brasileiros
Varejo SA por Varejo SA

Consumo de chá cresceu 53% em nove anos no Brasil. Busca por qualidade de vida e sabor é a principal motivação dos consumidores

O brasileiro é famoso pelo hábito de tomar um cafezinho, mas outra bebida tem conquistado o país. Segundo pesquisa da Europass Monitor, o consumo per capita de chás cresceu 53% entre 2010 e 2019. O avanço da Tea Shop no Brasil, rede espanhola que também está presente em diversos países da Europa e na Argentina, é reflexo dessa tendência. De 2013 para cá, a rede abriu 34 lojas pelo país e contava com uma expansão de 21,4% até setembro de 2019.


Michel Bittencourt, diretor da Tea Shop no Brasil, afirma que o mercado europeu já é maduro, mas que o Brasil apresenta uma expansão maior em relação à Europa. “O brasileiro já é um consumidor de chás caseiros. Temos a maior biodiversidade do mundo e uma tradição de usar plantas para fazer infusões. O que está mudando são os hábitos das pessoas, que estão cada vez mais preocupadas com qualidade de vida e mudando seus hábitos de consumo”, avalia. Ele aponta que o consumo de refrigerantes está caindo e o de outras bebidas, aumentando. A pesquisa da Europass Monitor aponta que a taxa de crescimento anual composta do mercado de chás (13%) é superior à das demais bebidas não alcoólicas (11%), em um cálculo que leva em consideração os dados desde 2010 e a expectativa até 2024.

Além da preocupação com a saúde, a busca por sabor e qualidade tem atraído consumidores para o chá. “As pessoas já sabem que é uma bebida mais saudável, então queremos aliá-la ao prazer”, afirma Bittencourt. Uma das estratégias tem sido unir o chá ao universo da gastronomia, como promover o uso do ingrediente em receitas, em harmonização com outros pratos ou em preparo de drinques. A Tea Shop desenvolveu biscoitos, geleias, mel e cervejas que levam chá na composição. O diretor da rede observa que as mesclas de chá preferidas dos brasileiros são as críticas e frutadas, por se tratar de um país tropical. Baunilha, chocolate e chá de especiarias também fazem sucesso.


Desafios do pequeno empreendedor

O chá não tem despertado o interesse só dos consumidores, mas também dos empreendedores. “Dentro da nossa própria rede, franqueados estão buscando mais de uma operação. O brasileiro está descobrindo o chá como negócio”, afirma Bittencourt. É o caso de Thaís Junqueira, que, durante uma viagem ao Uruguai, decidiu abandonar o mercado financeiro e se dedicar aos chás. Em 2015[1] , criou a marca Infusiona-Thé e desde então atua como tea blender, nome da profissão de quem desenvolve mesclas, e sommelier de chás. Atualmente, também é membro da equipe de especialistas do El Club del Té, organização internacional dedicada à bebida.

Os principais desafios ao estabelecer a própria marca foram relacionados ao fato de ser um mercado relativamente novo, que está em vias de expansão e consolidação: “Há muita dificuldade de encontrar informações claras do ponto de vista técnico e regulatório. Saber, por exemplo, do ponto de vista regulatório, que espécies vegetais podem ser utilizadas no preparo de infusões, quais são os requisitos para fabricação, embalagem”. Thaís também teve dificuldade de encontrar dados abrangentes sobre o consumo do chá no Brasil para embasar análises estratégicas e de posicionamento de mercado. Em 2019, a sommelier e tea blender se engajou com a criação da primeira Associação Brasileira do Chá (ABChá) e atualmente faz parte da diretoria executiva da entidade, que busca disponibilizar informações de qualidade aos empreendedores do setor, em especial os pequenos.

Para quem deseja empreender no setor, ela considera fundamental uma formação técnica em relação ao chá, como sommelier ou blender. “Acho muito difícil, senão impossível, começar a empreender no setor sem conhecer as diferentes variedades de chá, a forma correta de preparação e o mínimo sobre a sua cultura, começando pela definição técnica e correta do que é o chá: bebida preparada a partir da infusão da planta Camellia sinensis. Sendo assim, uma infusão de camomila, tecnicamente, não é chá”. O nome correto para preparados com ervas, flores e especiarias é infusão.


Conhecimento em administração financeira, marketing, design e branding também é necessário para quem deseja empreender por conta própria. Atualmente, a renda principal de Thaís vem da atividade como professora no El Club del Té. “Para microempreendedores como eu e como muitos do mundo do chá que possuem profissões ou atividades paralelas, a falta de tempo acaba sendo um grande empecilho para o crescimento da marca e é necessário organizar-se para que o trabalho renda frutos mais consistentes”, aconselha.

Ainda falta conhecimento para o consumidor

A falta de conhecimento sobre o produto ainda é o principal desafio na área. “Em alguns casos, os benefícios são amplificados – o chá é retratado como remédio emagrecedor milagroso, por exemplo – e, em outros, criam-se supostos malefícios pelo consumo regular – por exemplo, o chá causa prisão de ventre, o que não é verdade”, alerta. A falta de conhecimento pode afetar até mesmo o sabor final do produto. “Ainda hoje, no Brasil, o grande equívoco que as pessoas cometem ocorre no momento da preparação da bebida, o que, infelizmente, tem uma consequência terrível em termos do produto final. Por mais que qualquer profissional produza um blend espetacular, esse trabalho irá por água abaixo quando o cliente não o preparar da maneira adequada”, afirma Thaís. O tempo de infusão e a temperatura da água devem ser adequados para cada tipo de folha e de mescla.

O diretor geral da Tea Shop afirma que ainda há alguns paradigmas a ser rompidos, como a ideia de que chá seria uma bebida apenas para idosos. O público da rede é composto por jovens adultos, entre 20 e 45 anos. Outro mito é relacionado ao modo de consumir: quente e apenas quando está frio. A Tea Shop tem se esforçado para educar o público quanto às diferentes formas e momentos de consumir chá: quente, gelado, de manhã, no almoço, à tarde e à noite. A ideia é mostrar como a experiência do chá pode fazer parte de todos os momentos do dia.


“Assim como um vinho, um chá também tem seu ritual. A gente traz isso para a vida prática das pessoas”, diz Eduardo Jardim, sócio da Moncloa, franquia brasileira com 21 lojas e [2] e-commerce. Para valorizar esse ritual, a marca criou a hashtag #MomentTea. “Queremos que nossos consumidores tenham seu #MomentTea, que traz calma, concentração e alegria ao dia a dia”. O sócio da Moncloa afirma que os consumidores da marca desenvolvem uma ligação emocional com o produto. A Moncloa aposta no Instagram em sua estratégia de redes sociais, em especial para atrair clientes para o e-commerce.


Para inserir o chá no cotidiano do consumidor, a marca investe em acessórios práticos, como xícaras com infusor que podem ser levadas para o trabalho e garrafinhas para consumir a bebida na academia. Além de trazer praticidade, os acessórios adequados impactam no sabor do chá. “A questão do design não é apenas pela beleza, mas também pela utilidade. Você precisa ter um acessório correto ou não consegue extrair o máximo de sabor e de benefícios”, afirma Jardim.


A estratégia tem trazido bons resultados. Em 2019, a Moncloa alcançou um crescimento de 37%. A média de crescimento nos últimos quatro anos é de 42% e o objetivo da marca é chegar a 50 operações no país. “Não é uma moda passageira, é um negócio em longo prazo. O consumo de chá veio para ficar, porque parte de uma mudança de comportamento do consumidor”, avalia.

A experiência da loja é fundamental para as vendas. “Todos os elementos das lojas são voltados para a experiência multissensorial: olfativa, visual e gustativa”, afirma Bittencourt. A Tea Shop oferece degustações e explora o aroma dos chás para atrair clientes. “Trabalhamos com folhas frescas para proporcionar essa experiência. Quanto mais fresca, mais presente o aroma. É diferente dos sachês de supermercado, elaborados com a erva seca, o que leva a uma perda de sabor”, explica. Já a capacitação da equipe é necessária para educar e dar suporte ao consumidor na escolha e no preparo do chá. “O cliente quer saber mais e faz perguntas sobre a origem da folha, as propriedades, como pode ser tomado. Quando vêm trabalhar conosco, nossos funcionários falam: ‘Eu não sabia que tinha tudo isso por trás de uma folha de chá’”.

Glossário do chá


Chá: bebida produzida a partir da planta Camellia sinensis. Há seis variedades: chá preto, branco, verde, amarelo, escuro e oolong.

Infusão: bebida preparada a partir da imersão de ervas, plantas, folhas, raízes e frutas na água quente.

Blend ou mescla: misturas de chás com frutas, especiarias, flores e ervas.

Infusor: filtro em que se adiciona o chá, a infusão ou a mescla. Ele deve ser mergulhado na água pelo período adequado e ajuda a evitar que restem resquícios da planta na bebida.


Preciso confirmar essa data.

Esse dado é de julho do ano passado, preciso checar se tem um mais atual.

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