7 de janeiro de 2020
A ponta do iceberg
Varejo SA por Varejo SA

Maria Luísa Ferreira de Fontes Serquiz[1]

Tudo começou em uma viagem de férias. Bonitas praias, bons restaurantes e uma estadia espetacular em um confortável resort massagearam minha mente e relaxaram meus olhos. Na saída da cidade, meus olhares de passageira foram tomados por uma estranha paisagem, na qual as belezas dos modernos arranha-céus e de um luxuoso shopping center não conseguiam esconder dezenas de casas de palafita decadentes que resistiam em permanecer naquele retrato que não lhes pertencia, denotando a extrema pobreza circundante.

Mas veja que afronta! Casebres de madeira, às margens de um rio, abrigavam famílias inteiras, que se banhavam, lavavam suas roupas e bebiam daquela água poluída, realçando uma miséria que eu já acreditava não haver ali. Mas como era possível? – perguntava-me, olhando os altos índices de desenvolvimento local. Mas a verdade nua e crua estava ali, como sempre esteve.

Mais adiante no caminho, já saindo da área mais central da cidade, percebo que as palafitas eram apenas a ponta do iceberg. A verdade é que o crescimento econômico do nosso país nas últimas décadas é inquestionável; o desenvolvimento, contudo, parece ainda estar longe de ser alcançado. Numa perspectiva brasileira, esse “desenvolvimento” é seletivo, não alcançando a grande maioria da população, que permanece sem acesso ao básico.

Acredito que o entendimento e a reflexão sobre essa temática são imperiosos para todo o setor produtivo e inicio com um alerta: essa dicotomia socioeconômica exagerada precisa ser revista e cuidada com maior atenção. Caso contrário, não adiantará termos as melhores empresas, as mais produtivas, mais tecnológicas, não adiantará blindarmos os carros e subirmos os muros, a “ponta do iceberg” nos alcançará, assim como a criatura sempre acha o seu criador, e a saga do “terceiro mundo” nunca sairá de nós.

Segundo dados do Banco Mundial, a desigualdade social voltou a aumentar com a crise econômica iniciada em 2014, interrompendo uma década de redução continuada da pobreza.  Registra ainda o documento que “as crescentes taxas de pobreza do Brasil têm sido acompanhadas por um salto na taxa de desemprego, que cresceu quase 6 pontos percentuais do primeiro trimestre de 2015 e chegou a 13,7% da população no primeiro trimestre de 2017”.

Sem dúvida, o quadro descrito é tóxico também para o empreendedor. A mudança se impõe e dá espaço a uma nova era de empreendedores – aqueles que abrem mão de seus valores, se preocupando apenas em gerir riqueza e gerar lucro, saem de cena para dar lugar aos que já entendem o mercado como ecossistema. Compreendem que o seu negócio só prosperará se todo o meio em que está inserido estiver bem. Isso tem feito com que os empresários do Brasil inteiro passem de meros espectadores para protagonistas das políticas públicas nacionais. Protagonistas, sim, colocando o empreendedorismo como o maior vetor de transformação socioeconômica do país, que inclui, empodera e dá sustentabilidade financeira às pessoas. Dignidade.

Os problemas do Brasil são complexos e suas soluções precisam de ações articuladas, sendo a economia, a segurança, a saúde e a desigualdade apenas algumas de suas facetas mais expressivas a exigir ações concertadas.

São estas as reflexões que por ora faço sobre as temáticas de desigualdade econômica e empreendedorismo no país e seus contrastes, renovando o chamamento de todo o Sistema CNDL, responsável pela implementação da cultura empreendedora, para nos empenharmos na construção de um Brasil forte economicamente e desenvolvido socialmente.


[1]  Empresária e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas Jovem de Natal.

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