14 de outubro de 2019
A história que ninguém conta: a vida de renúncia do empreendedor
Hilaine por Hilaine

Voe como um gavião e tenha visão de longo alcance, mude a forma como você vê as coisas, se dê a chance de errar, aprenda com o erro, pare de agir como se a vida fosse um ensaio, tenha coragem e mude, não use atalhos, planeje, mas não se esqueça de usar a sua intuição, você é o seu negócio, crie empatia e coloque as pessoas no centro do processo, ultrapasse as suas barreiras etc. Essas são algumas poucas frases imperativas que comumente escutamos em lições para alcançar o sucesso, na vida, na carreira, nos negócios. Além desses comandos, fomos massacrados por uma avalanche de livros, atualmente líderes de vendas, que usam regras do bem viver e trabalhar, como o A arte sutil de ligar o f*da-se, da Editora Intrínseca, produções literárias lotadas das tais frases de impacto ou, como prefiro dizer, os mantras da vida moderna.

Em tempos de valorização do empreendedorismo em seu grau máximo, da possibilidade de ter liberdade e ser o seu próprio patrão, de fazer o máximo para deixar um legado para si e para as futuras gerações, de mudar o mundo, de sermos bem-sucedidos e virarmos história, pouca gente se pergunta o que está por trás dessa grande empreitada chamada renúncia.

Será que esse caminho rumo ao sucesso, da maneira como se promove, serve para todos? Não estaríamos nós caminhando rumo a uma armadilha da produtividade sem pensar nas consequências?

Certo dia, uma professora doutora, em meio a uma aula na universidade, nos contou sobre como o seu corpo (coluna e pulso) já indicavam envelhecimento. Interferi, questionando a sua interpretação, ao meu ver, bastante simplista. Fiz algumas perguntas sobre a forma como trabalhava, o quanto se dedicava à escrita e à leitura e seus hábitos para cuidado consigo. No princípio, ela estranhou tantas indagações de ordem particular e respondeu sem me dar muito crédito, porém foi levada pela curiosidade da então aluna intrometida. Minha conclusão foi de que, apesar de estarmos trabalhando nosso cérebro, emoção e campo simbólico na produção do conhecimento, o corpo também é uma ferramenta de trabalho. Ela era uma profissional de alta performance, dada a quantidade de produção acadêmica que realizava. Assim como os jogadores de futebol cuidam de seus joelhos (além de outras partes do corpo), ela deveria cuidar de elementos que estão diretamente ligados ao trabalho intelectual – a coluna e os pulsos estão diretamente conectados à prática da leitura e escrita. No fim das contas, a professora, que nunca havia se percebido como uma profissional de alta performance, ficou um pouco mais feliz, se sentiu menos velha e muito mais orgulhosa dos males que estava enfrentando. Ela não havia se dado conta das muitas renúncias que havia feito (e ainda faria) para se realizar.

Antes de comprar tantas “regras”, será que não é hora de pararmos um pouco para pensar no preço que se paga por uma vida sem pausa, sem intervalos, sem descanso? Será que não é o momento de ouvir o que nosso corpo e mente estão apontando? Será que não é hora de escutar o que suas dores estão dizendo e questionar a culpa que sentimos por não estarmos em pleno vapor, por não obedecermos àquele coach incrível que seguimos nas redes sociais, por não termos tempo de ficar com os filhos?

Empreendedor, é hora de questionar e não de obedecer.

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