19 de agosto de 2019
A evolução do queijo artesanal
Varejo SA por Varejo SA

Produto brasileiro ganha cada vez mais adeptos, produtores capacitados e prêmios internacionais

Eu não vendo queijos, eu conto histórias. É com essa máxima que a empresária e diretora da Associação de Comerciantes de Queijo (Comerqueijo), Rosanna Tarsitano, define seu principal ofício. Jornalista por formação e trabalhadora do ramo de laticínios por paixão, ela vive na pele o dia a dia que tem se tornado uma tendência no país: a preferência por produtos artesanais, repletos de processos e tradições que passam de pais para filhos. “Nos últimos anos, tem crescido uma preocupação do consumidor com a procedência, a origem e a qualidade dos produtos, em especial, dos queijos. É uma questão ligada à saúde e à busca por uma alimentação mais natural e menos industrial”, diz Rosanna, que também afirma que essa preocupação traz benefícios para os produtores, que têm seus processos valorizados, trazendo mais dignidade para o campo.

O que a empresária percebe entre seus clientes e fornecedores, uma pesquisa desenvolvida pelo Serviço Brasileiro de Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) da Região do Jequitinhonha e Mucuri, em Minas Gerais, comprovou em números. Após ouvir 16 produtores que participam do projeto Origem Minas – que tem como objetivo fomentar o desenvolvimento, a competitividade e a diferenciação das micro e pequenas empresas do agronegócio e da gastronomia de Minas Gerais –, foi possível identificar o crescimento da receita média de vendas entre 2017 e 2018 em 80,6%. O faturamento passou de R$ 63 mil para R$ 114 mil, sendo que o valor médio do produto subiu de R$ 22,17 para R$ 28,64 no período analisado.

Com capacitação, regularização, promoção e apoio no acesso a mercados agroindustriais e pequenos empreendimentos rurais, foi possível atingir os resultados, que também surfam na onda da busca por uma alimentação mais saudável. Essa especialização que chega ao campo já tem rendido frutos e o Brasil está se tornando referência na área, tanto que os queijos produzidos por aqui foram destaque em uma das maiores premiações do mundo, o Mondial du Fromag, na França, realizado no início de junho deste ano.

O Pardinho Artesanal, produzido no município de mesmo nome, no interior paulista, pelo produtor Bento Mineiro, na Fazenda Sant’Anna, foi a grande estrela, ganhando a medalha superouro, a mais alta da premiação. Ao todo, queijeiros de quatro estados brasileiros (São Paulo, Minas Gerais, Paraíba e Pará) saíram do concurso com mais de 50 medalhas, entre superouro, ouro, prata e bronze. A maior parte dos premiados é de Minas Gerais, região do Brasil que, graças à tradição, condição climática, altitude e vegetação, possuem características marcantes.

Apesar da qualidade do produto, existe muito a ser feito para que o queijo artesanal chegue à mesa do consumidor. Um passo importante foi dado em julho, quando presidente Jair Bolsonaro sancionou o decreto de regulamentação do Selo Arte, que vai garantir a comercialização em todo o país de produtos alimentícios de origem animal produzidos artesanalmente. O Selo será concedido pelos órgãos de saúde pública em cada estado, permitindo a simplificação da circulação dessas mercadorias no território nacional.

Para chegar ao selo foi necessário um grande esforço de associações de produtores, de instituições como o Sebrae e da Frente Parlamentar Mista das Micro e Pequenas Empresas no Congresso. Com a medida, pelo menos 170 mil produtores de queijo artesanal serão beneficiados. “É uma espécie de Lei Áurea para os produtores, que agora estão livres para vender em todos os estados, inclusive, no exterior”, comemora o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

Segundo Melles, o novo marco legal corrige uma injustiça histórica e representa um ponto chave para os pequenos produtores, responsáveis por preservar a memória secular do modo de produção de artigos tradicionais como o Queijo Canastra (MG) e o Socol (ES), ambos reconhecidos com o Selo de Indicação Geográfica.

Como se vê, o queijo artesanal já iniciou sua jornada que, mais do que a conquista de um mercado, deve passar pela preservação das tradições ancestrais e o encontro do consumidor com sua própria cultura gastronômica.

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